domingo, 21 de dezembro de 2008

verano

É preciso aproveitar o calor destes dias, o sol que afaga sem ferir, as férias passageiras que podem morar em qualquer caminhada. É preciso admirar o reflexo conjunto da luz sobre os carros, espelhos e pára-brisas transformados em um bilhão de estrelas. É preciso cultivar e contabilizar as pintas, aumentar o patrimônio a ser controlado por um dedo demorado sobre a pele. É preciso ter paciência com a preguiça, cozinhá-la em fogo lento ou embalá-la em rede de algodão. É preciso querer as coisas boas todas, como em um álbum de figurinhas onde se permitem as repetições.É preciso olhar para o sol até que o branco aumente até tomar tudo, é preciso se cegar e desaprender as cores e perambular pelo mundo às custas das próprias mãos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

tsc

Eu acho feio, eu não entendo essa gente que não consegue ler um livro que não ganhou um Nobel, ouvir uma música que não toque na rádio, ver um filme que não tenha 4 estrelas, que não tenha a menor curiosidade de saber algo que não sabe, que tenha medo de descobrir por si só, que tenha vergonha de se perder nas pequenas selvas de uma biblioteca, eu tenho pena, eu acho triste, seguir à risca os guias e pedir sempre a especialidade do restaurante da moda, eu acho feio, eu acho foda, quem depois de um comentário troca de opinião sobre um artista, quem aplaude um bailarino mas não um trapezista, e não, não acho culto, por mais que alguém finja, só gostar de pintores que tem nome de tartarugas ninja.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

esconderijos e encontros

Um menino, uma criança bem pequena, se esconde atrás da porta de treliças de um armário, possivelmente perto dos dois anos de idade. Por ser ingênuo, ou talvez já previr o destino próximo, ou querê-lo, deixa a porta entreaberta, os pés ainda no chão a escorregar por debaixo dela, pontas à vista. Uma pista decisiva para o homem, por certo ainda jovem, que o persegue. Ao encontrá-lo, o toma debaixo de um braço. O menino esperneia, mas assim mesmo é levado para o cativeiro: o lado da cama encostado na parede. De onde o garoto tenta escapar do homem que na outra extremidade o prende. E consegue escapar! Retorna às pressas a – acredite – o mesmo esconderijo. E em segundos a cena inteira se repete. E tudo de novo umas quinze vezes, pelo menos (numa contagem evidentemente mais emocional do que precisa). Tudo isso às custas de muita gargalhada e de uma alegria envolvente de ambos. Essa é a primeira lembrança que tenho da minha vida, tal brincadeira com o meu pai, numa terra distante e fria, que não combinava com nossos corações já tão brasileiros. Depois, o tempo. Com suas felicidades outras, percalços, amores, lições e desaprendizados. Hoje o menino cresceu e, ninguém sabe bem por que, não havendo mais portas de treliças à volta, esconde-se atrás de palavras e suas entrelinhas. E o pai, que nunca foi tanto de poesias e literaturas, curiosamente o segue perseguindo. Nos novos tempos as pistas não mais são óbvias. Mas é mais maduro também o homem que observa e paciente as destrincha, como se sempre houvera sido leitor voraz. E talvez o tenha sido, mesmo, não de livros, mas do filho, este que ainda se alegra a tal carinho.

domingo, 16 de novembro de 2008

composição

Não é preciso ser bom na hora, não é preciso sequer que seja meio bom. Basta que crie memórias, que seja matéria prima para imaginação fazer suas obras. Que é o que me sobra. Os círculos e as volutas e o castelos de cartas incertos e vacilantes. Pode ser pouco, pero é o bastante. Energia para a espera, a longa hibernação, La petite mort. Basta umas poucas imagens, recortadas para que eu possa montar ao meu bel-prazer em infinitas colagens, trocando a ordem das mãos, embaralhando as pernas, redobrando cuidados. Oh não, na hora não é preciso que seja bom.
Basta não ser perecível.

domingo, 9 de novembro de 2008

do que se perde

Você foi meu muso mais fiel, meu (cuidado, vou usar uma palavra aterrorizante) meu amor mais impossível. Mas antes de tudo, depois de tudo, você era a pessoa para quem eu contava tudo. Não havia nada pequeno demais ou grande demais. Nada bobo demais ou indesculpável. E te ver era descortinar o sol, era alguma perfeição rara e inexplicável desses momentos que não pertencem à realidade e contrariando todas as possibilidades, acontecem, simples assim. Eu te escrevia cartas, longas e curtas, talvez apenas um bom dia para cada manhã, aquelas cartas com minha assinatura mas sem teu endereço, nossas cartas embaralhadas e confusas, sem destinatário certo.
Só que escrever, escrever é construir labirintos e isto é tudo o que fazíamos, aumentar as paredes e depois virar as esquinas e dar com finais abruptos sem poder olhar por sobre as ameias, sem poder mais do que chamar seu nome e seguir virando ângulos e cruzando umbrais.E foi vagar por este labirinto sem um fio de Ariadne, essa longa e exasperante teia de muros, já faz tanto tempo que eu já não sei, se me visses agora, se eu seria tua saída ou teu minotauro, se erraríamos juntos ou nos tatearíamos sem nos reconhecer no escuro, como mais um trecho de pedra, outro pedaço de muro.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

parotempo

Agora eu entendi porque ela diz que a essência da literatura russa é a paixão. E noto isso pelo jeito que seus cachos castanhos caem improvisando sobre as bochechas, enquanto pouco acima a umidade dos olhos tenta esconder a leveza do sorriso. Às vezes o tempo pára mesmo, e os detalhes gritam sua presença um a um. Não há como não senti-los todos juntos a esse instante, descrevê-los, antes mesmo do novo tic do ponteiro. Tac.

domingo, 2 de novembro de 2008

magritte

Parece estúpido eu sei.
Se apaixonar por um chapéu. Mas foi o que aconteceu, justo por um chapéu, como se ele usasse bigode ou lesse Borges ou jogasse squash. É que ele pairava acima de todas as pessoas comuns. É que ele era algo estático num mundo que não pára de girar jamais. Algo em que se pode confiar. E foi assim, desse jeito besta, me apaixonei por um chapéu. Veja bem: pelo chapéu. Não me entenda errado, porque quando eu olho para você, estou olhando para o chapéu e quando falo com você, estou falando com o chapéu. Eu passaria reto por você na rua, se você estivesse com a cabeça nua, eu mal te reconheceria, tentando me lembrar agora, eu mal consigo reunir dois fragmentos que te formem um rosto. Não me entenda errado, querido, você sempre estará à sombra desse seu chapéu.
Quando eu penso em você, estou pensando no chapéu. Não me entenda errado.
Quando eu beijo você. Eu só estou tentando encontrar um espaço sob as abas.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

meia luz

era o crepúsculo. ela se emaranhava em um nó de dores e desejos. talvez o chamasse de saudade. mas era só o crepúsculo. alguns cientistas - ela havia lido certa vez - demonstraram que muito do que sentimos - aparentemente no âmago ou alma - é pura química corporal. e passou a pensar na paixão avassaladora como uma maldição, um ente cruel, um maligno alquimista de seu ser. mas era só o crepúsculo. nem ela, nem os tais cientistas - talvez alguns poetas apenas - entenderam o poder da meia luz a esvair-se. toda nostalgia-depressão-ou-mera-tristeza será sempre filha do assombro da hora em que o dia cede ao breu. até que a noite cai, esparramam-se letreiros, promessas e postes se acendem. enfim, a luz novamente, ainda que outra. e torna tudo mais fácil, mais indolor. ou pior, esperançoso. e depois a aurora.

(ispirado nesse texto de Jaque Lima:
http://jaque-lima.blogspot.com/2008/10/tarde-noite.html)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

um conto chamado situações (parágrafo 4 de 4)


Um ano antes, a moça que fora dama de honra dessa festa pagã via pela primeira vez o Robertinho. E quase chorou de comoção com o sorriso mútuo à primeira vista. Robertinho, por sua vez, demorou a contá-la que era herdeiro de um vasto patrimônio financeiro construído pelo avô. Antes, preferiu encantá-la com seus dotes artísticos, exibindo seus quadros, até interessantes, mas que juntos nunca chegariam a valer perto de um milésimo do que aquilo que herdaria por sua fortuna genética. Algum tempo depois, eles perderam juntos suas virgindades. E o dia mais feliz da vida dela foi quando, aos 21, recebeu de Robertinho o pedido de casamento no café de uma livraria em Paris. Perceberam bem?, o dia mais feliz da vida dela. O que me deixa triste, dado que viveu até os 89 anos de idade, três filhos, cinco netos, alguns amigos, outros nem tanto, muitas festas, lágrimas e toda aquela coisa.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

um conto chamado situações (parágrafo 3 de 4)


Pois, no andar de baixo, um menino de 3 anos que ouvia a gritaria e o som das pancadas começava a chorar. Tal garoto, já devo antecipar-lhes, por sua vez, não teve uma vida das melhores, ou das sonhadas por seus pais. Aos 10 anos de idade foi iniciado sexualmente por sua instrutora na colônia de férias, esta aos 17 à época, durante a calada de uma noite fria, em um colchão muito pelo contrário. Mas não sintam pena por isso, dado que o rapazote agradeceu aos céus sua precocidade e as vantagens que passou a possuir, então, sobre os coleguinhas. Precocidade essa confirmada quando aos 15, aí sim, engravidou a namorada. Por isso, foi posto a trabalhar desde cedo. Depois teve uma overdose aos 18, e veio a falecer enfartando aos 41 enquanto curtia a festa de um ano de casamento com sua terceira esposa.

(clique aqui e leia o parágrafo 4)

domingo, 12 de outubro de 2008

ensaboa

Tua memória tem desbotado tanto. Já está nos últimos tons de rosa e não demora a sumir. Teu rosto é uma nódoa removível com água morna e sabão sapóleo. Tudo quase bolha e espuma. Tudo indo longínquo na bruma. O pergaminho se esgarça, da próxima vez se imprima em pedra. Em mim. Que daí já nem com areia. Que nem esfregando com força e tempo. Que a imagem se deforma, mas não vai. Pra não depender de nenhuma das cores do espectro. Pra nunca deixar
De me assombrar.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

um conto chamado situações (parágrafo 2 de 4)


A alguns metros dali, em um apartamento muito bem decorado, a pesada mão de um homem alto e um tanto fora de forma estalava sobre o rosto de uma bela mulher, cuja idade real faria qualquer um crer que a carteira de identidade era por demasiado exagerada. Os xingamentos de puta, piranha, vadia, eram proferidos aos brados pelo homem fora de si. E que, a certa altura, já começava a ditar regras novas sob as quais aquele lar (sic) seria regido. Os ouvidos da mulher deitada, úmidos das lágrimas que o assolavam, sabiam que não havia veracidade em nada daquilo que lhes ressoava. Naquele instante ela tinha certeza de que a relação se encerrava em definitivo. E, apesar do rosto ardendo, não se arrependia um orgasmo sequer. O homem, ainda turvo em seus pensamentos baqueados, sentia que se ela soubesse de todas as suas aventuras poderia taxá-lo de injusto, mas precisava tomar a atitude que a vida lhe ensinara adequada a um homem naquela situação. É possível que esse pensamento tenha disparado nele uma crise de choro logo em seguida, mas não tenho certeza disso.

(clique aqui e leia o parágrafo 3)

(clique aqui e leia o parágrafo 4)

domingo, 5 de outubro de 2008

incidências

A nova garota dele tem o mesmo nome que o meu. Pior, tem os cabelos cacheados e a pele branca, mas não se engane, não se parece comigo. A intersecção é bastante para nos parecermos numa descrição superficial de parágrafo de livro, duas ou três palavras com quem alguém acha que definiu uma aparência.

Basta eu dizer isto: você jamais me confundiria com ela na rua. Cachos apertadinhos e brilhantes como aqueles que se fazem com tesouras em fitas para colar em presentes. Ademais, sabe se vestir, não é uma desengonçada feito moi.

Tem uma carinha de estúpida, mas é, sim, bonita de verdade. Não digo para ser má, é que brincamos todos de conversar, pinguepongueamos idéias e bobagens. Ela aperta e pisca os olhinhos como se fosse míope. Como se fosse míope e não estivesse usando os benditos óculos. Quando quer participar, cospe um absurdo que se vê logo de onde vem, tem um abajur sobre a mesa e ela diz “abajur”, um completo fracasso para o dadaísmo.

Me distraí, sinto muito.
A nova garota dele tem o mesmo nome que o meu e o bêbado, o tonto, o parvo se engana. Não sei, o dedo escorrega e ele manda as mensagens que eram para ela para meu Messenger, meu celular. Amor, vou me atrasar. Tenho saudades. Um grande beijo.
Quando eu sei perfeitamente que não são para mim.
Só não sei se ele sabe.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

um conto chamado situações (parágrafo 1 de 4)

Depois de algumas horas de bastante comoção entre muitos na igreja, a festa do casamento já corria solta quando todos voltaram-se para os noivos atrás do bolo. Alguns adolescentes sugeriram a seu jeito galhofeiro cantar um parabéns pra você. Os convidados mais alegres riram da brincadeira, outros irritaram-se mandando-os calar a boca, enquanto uma outra jovem, essa do tipo mais introspectiva, ponderava que para o casal aquela seria, mesmo, uma data querida onde todos torciam por muitas felicidades, muitos anos de vida. Essa moça também reparou que escorria uma lágrima no rosto da conjugue da noite pintando uma tarjinha preta em seu rosto ao carregar a tinta da sombra da maquiagem em seu olhar. Era justamente o momento em que a noiva se lembrava de que só ela sabia o quanto tinha batalhado para chegar até ali. Eis que havia alcançado a sua coroação, dali pra frente os louros, supunha comovida.

domingo, 28 de setembro de 2008

dedos

e já que falávamos de esmalte...

Esmalte não é cor, meu amigo, os vermelhos, os marrons e os pinks no fim das contas se parecem e não há por que preferir esta cor à outra. Esmalte é gênio na garrafa, é desejo escondido de se por nas pontas dos dedos, é luz de farolete pra chamar a própria sorte. Daí convém, como poções que são, que tragam o rótulo, o nome, a função, a face que vem - pérola, luxo, magia, cravo-e-canela, atração fatal, paris, condessa, cigana, gabriela, fortuna, malícia, pecado, final feliz. Esmalte, amigo, não é cor nem vaidade nem nada daquilo que você pensava. Esmalte, amigo, é mandinga da brava.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

detalhes & rubores

apenas o vermelho da unha anelar esquerda apresentava evidente desgaste do esmalte. mas não era pouco o estrago que isso fazia naquela mão tão alva e bela. ele tentava não reparar. não pensar que a unha à meia tinta comunica uma espécie de dor; denuncia o cansaço de algum trabalho manual; é uma sombra de desencanto que não consegue se esconder. ainda mais quando vermelha, como o sangue, as paixões políticas, como se diz do céu ao se por o sol (ainda que laranja). a boca! a boca, ele pensou. na boca quis fixar, então, seus esperançosos porém tímidos olhos. mas o rubro do batom estrangulava a intensionada sensualidade ao deixar escapar um borrãozinho (se é que algo pode ser aumentativo e diminutivo ao mesmo tempo) na lateral.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

de favor

Dona vizinha, por gentileza, cuide bem do meu menino, ele só bebe água de perfume, ele come semente de mamão, ele se agarra nas saias de filó. Senhora dona vizinha, isso eu te peço mais encarecidamente que aquela xícara de açúcar, olha por ele em dobro nos dias ímpares que ele tem qualquer coisa de extraordinário. Ele não se descomporta, falo sério, nunca vi. Nunca pintou parede com maquiagem e nunca passou meu rímel nas franjas do carpete. Ele sabe dar cambalhota, está aprendendo a fazer compota, às terças e quintas dê-lhe chá de bergamota. Vizinha, minha vizinha, cuida bem do meu menino. Que ele não sabe como é que eu fico sem ele. Que ele não faz a menor idéia.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

à moda de ana c.

Outro dia, quando concordei que a literatura contemporânea apresenta uma estética da delicadeza, lembrei-me da gengiva, quando sangra.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

rehab.

o torpor. os efeitos se estendendo por horas depois da absorção daquela dose. os olhos fechados. o arrepio. o querer mais. a bad trip das questões que não passam pelo fino filtro frio das convenções morais.
a insônia. o girar da cama. o delírio.
o prenúncio do vício. os neurônios a mil sinapsando avais e recursos para a manutenção daquela onda eletromagnética de fechar os olhos.
no dia seguinte, a inexplicável calmaria. mas a certeza de que só dura alguns dias. até o corpo me pedir mais. me torturar com as câimbras da abstinência. se perder na leveza de ser um corpo sem o peso d'outro corpo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

incêndio no lamaçal: há animais cuja extinção se deseja

Vê, vereador candidato, que eu de fato não quero votar em você. Antes vetar, se pudesse. O que eu quero ver é a dor de todo candidato a perder. Vereadora da placa da esquina, de onde e do que esse sorriso que te reluz a narina? Que esgoto respira? E o que nos aplaca essa sua foto de horrendas cores e palavras que te candidatam esgotando a cidade? Esse ar cândido não sabe enganar, nem tal mnemônico código numérico, não a mim. E me enoja esse praguejar contra demônios pela religião de eleitores. Quem sabe uma chama, isso sim, pudesse acender seu parlamento e o meu lamento incendiar.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

tectônica.

é preciso fechar os olhos parar que mundo aconteça. desde que o mundo é mundo, ele não gosta dessa coisa da prisão que é o olho das gentes. ele só acontece quando a gente, de olhos fechados. ele só acontece quando a gente, de costas pra ele. ele só acontece quando ele pode se mexer escondido da gente. porque algum homem de fé amarrada disse do mundo o lugar das coisas imóveis. e o mundo, todo ele, conspira pra deixar a gente conformar essa mentira.
mas é só fechar os olhos. uma a uma e pra cada pessoa que desatenta, uma pedra pula do fundo da terra e liberta sua natureza dançante.

domingo, 7 de setembro de 2008

mestre et pupila

Eu vi o menino se debruçar através dos olhos do homem, a alegria de uma bobagem, uma alegria qualquer. Eu vi as coincidências armarem suas linhas pelos meus aposentos, as coincidências que ligam as angulosas geometrias dos lugares que a gente freqüenta. As coincidências que a gente inventa. Letras coloridas e orelhas de caderno. Pequenos infernos particulares. Nossos demônios, eles também precisam de lares. Eu vi as coincidências brandas ou assombrosas, escamosas ou divertidas. Vi nossas figuras no espelho, iguais, pero invertidas. Que é como é a minha imagem que tu guarda, miniatura de ponta cabeça na tua retina.Eu, que por ventura já fui a menina
dos teus olhos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

gastrite, caramelinhos e caraminholas

Desde que me cortaram o café, ando chupando caramelos. Não aqueles macios, prezo muito a amplidão de minha fala. Portanto prefiro as balas mais durinhas, estilo pastilha, que não grudam os dentes. Com isso tudo, o amargo tem esvaziado-se um tanto da minha palavra agora mais doce. Doce como pode um pranto evocar renovação. E açucarado como quem continua não suportando a falta de sabor. Desde que me cortaram a acidez também, ando com essas caraminholas na língua, tentando ainda afiá-la em cada sílaba.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

miocárdio.

eu gosto quando as coisas adquirem um caráter simbólico. eu gosto quando cada passo denuncia uma história, quando cada palavra crava fundo e traz com ela um naco de carne quando a gente puxa. eu gosto quando eu sinto o coração parar e sinto a marola do sangue parado irradiando pra cada célula do meu corpo e por um instante parece que o mundo parou e que eu sou a única partícula se movendo, giro-espanando no espaço. e a inércia que dura menos que um instante é interrompida pelo pulsar de todo o meu corpo: ondas de arrebatamento saindo de alguma cavidade cardíaca, ecoando até a última célula do último fio de cabelo que brota do cocuruto. e mais uma vez. e de novo. até ser possível prever um padrão de intensidade e frequência. e é como se ele reaprendesse a se contrair e relaxar, fazendo com que o sangue flua mais espesso e me carregue pro que quer que seja a frente.
e eu me deixo ir.

domingo, 31 de agosto de 2008

Enquanto encostava o meu queixo e a minha testa contra os ferros, a coluna bem torta para alcançar a altura correta. A luz se acendeu no fundo, para um olho só. Embaça, duplica e depois fica perfeita. Uma estrada sinuosa, um balão colorido, um céu azul. Foca no balãozinho. Obedeço. E agradeço. Em uma máquina dessas, imagina cada coisa que eles podiam nos obrigar a olhar. Dentes amarelos, splashes publicitários, um espelho,baratas com as perninhas para cima, mas em vez disso um balãozinho singelo. Não contenho o sorriso.
Agora já pode piscar.
Depois, uma porção de lágrimas quentes de belladonna, os contornos fogem como se deus (o grande colorista) tivesse esquecido que a gente deve pintar sempre para dentro das linhas. Isso eles fazem por gentileza. Para nada destruir o eco daquela última imagem de dentro da retina.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

retina

Como pode dormir singela assim uma moça tão arredia? Me perguntei enquanto observava o detalhe de cada traço, imaginando no jogo de sombra e luz como eu faria para desenhar aquele rosto. Tão próximo à minha respiração quanto distantes deviam correr os sonhos que a pareciam apaziguar. Ah, como gostaria de ter habilidade para as belas artes! Algo ali, no pouso leve daquela boca ou no franzido fino da narina, explicaria as nuances e complexidades da minha menina. E, suponho, dariam quadro de estampada poesia.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

No dia - drops de arame farpado

No dia em que faz um ano que o amor da sua vida morreu, você pode ficar o dia todo de pijama de palhacinho, chorando e fungando, comendo sanduíches e falando com voz de bebê com os gatos. Você não precisa dizer nada, fazer nada, lincar nada, telefonar para ninguém, produzir nada. Faz um ano que ele morreu e não tem coisa alguma que importa ou faça sentido ou signifique.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

boa educação.

eu vou te levar pela mão na íngreme ladeira das minhas idéias e te mostrar cada cômodo da propriedade das minhas lembranças. eu vou deixar que você prove da doçura da minha cozinha e que você se encante com o canto dos pássaros que cantam na minha janela. eu vou te dar a chave da porta da frente e um edredon quentinho pra te embalar nas noites frias. eu vou te explicar como organizei os livros e deixar que às vezes você escolha uma música pra colorir o dia. eu vou dizer pra que você se sinta à vontade para tirar os sapatos e ser você-todo. eu vou deixar você dormir enquanto eu saio.

mas que você se atente ao aviso escrito em letras pequeninas no rodapé da sala de estar: essa casa é minha e aqui não existe o direito de você trocar as coisas de lugar.

domingo, 24 de agosto de 2008

sunken

Eu sinto falta dele. O pensamento veio do nada, despontou duma corrente contrária que falava de plantas e canteiros entre as ruas da cidade. Ficou ecoando feito um tabefe, um peixe morto que caiu do céu. Era preciso encontrar outra coisa em que se pensar. Rápido. Quantas pessoas já tiveram um silêncio desconcertante consigo mesmas? Como sem querer tocar num tabu e a sala se virar pra você de repente. Como se eu tivesse chorado no seu casamento. Como se eu tivesse gargalhado no seu funeral.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

decomposição

A melodia assombrava-lhe justo por não ser sombria. Era triste, mas doce, fria e suave como a brisa da tarde que insiste. Era tudo tão tal e qual seu estado atual que ele não era capaz de notá-lo. E ele escrevia e riscava e escrevia e riscava versos que eram só isso, versos. Versos sem cura ou magia, líricas sem o fio da metafísica. Vã inspiração, réstia de desejo, febre fugidia e outros delírios assim ele gritava em pensamento consigo. Ousou a rima na prosa, cantou uma rosa a menina e batucou com a carne dos dedos e a fibra das unhas. Ao final, compôs uma canção deitada, mas sem sombra de música e à luz do vão, enfim...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Drops de caramelo - Fatos da vida 1.

Quando você chega em casa triste, sozinha, nelvosa e taca as suas coisas de qualquer jeito no sofá e nem olha direito pra cara do gato e corre pra cozinha em busca de conforto e abre o armário e se dá conta de que a única coisa vagamente comestível por ali é uma lata de milho, olha, aquela história toda de apocalipse e fim do mundo e tal e coisa faz o maior sentido do mundo.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

427, apto 23.

não sabia os truques da casa nova. não tinha aprendido os passos certos pra se mover no escuro e não tinha educado o corpo pra se esconder dos medos num movimento rápido. o cheiro forte de tinta, os estalos dos móveis, a alergia e o susto a impediam de ter um sono tranquilo.
abriu os olhos e esperou com angústia os instantes para sua retina se adaptar à luz-pouca. viu os 143 livros empilhados no chão. as roupas amontoadas em 7 caixas a alguns metros da cama. viu o corpo dele dançando no balanço da cortina. ouviu o choro do filho que eles não tiveram. viu a mão. se confundiu com o brilho da capa dos 27 cds que couberam a ela no amputar de sua vida antiga. viu o punho. fechou os olhos. sentiu a dor.
tinha levado consigo mais coisas do que se poderia contar com números. tinha levado mais peso do que era possível carregar.

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um prazer postar aqui.
mesuras aos companheiros de blog e saudações aos leitores.
nos vemos às segundas.

domingo, 17 de agosto de 2008

um-dois, um-dois

O exercício da doçura. Um toque, um olhar. Um clichê, se preciso, mas algo bonito a dizer. Uma abertura. O silêncio bem-intencionado, mãos dadas, compreensão. Uma pausa, se segurar na hora certa, se permitir algo que queira fazer mas nunca faz. Ser humano, pedir o abraço a que você tem direito. Reverter o fluxo das lágrimas de volta para dentro com o som que faz ao dormir, um sopro quente e um afago. Dizer Você vale alguma coisa pra mim, Você tem o lustro de um quindim, Você é o meu bicho favorito. Dizer Fica bem. E tomar um sorvete. O exercício da doçura. A panacéia universal.

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o caramelinhos está de volta!
agora com novos ingredientes ;)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

a palavra silêncio é em si um contrasenso

sábado, 1 de março de 2008

Peito do pé do Pedro (parte 4)


Além de ser apaixonado pelos pés daquelas que ele - não sei por que cargas d'água - teima em chamar de donzelas, noutra das coincidências da vida, Pedro se acha um pé-de-valsa. E sempre pede uma salsa seja qual for o baile em que baile. Eu, seu pé, só acompanho. Deixo que elas, pernas, me guiem. Claro, claro, Pedro só tira pra dançar as tais donzelas em sandálias. E fica inventando passos para poder pegar com mãos os pés delas. O problema é que nesses momentos da dança elas não entendem o que passa. Aí ele tenta explicar com o olhar, nada. Tenta explicar com um movimento de mãos e braços, elas só rodopiam no espaço. Inventa, então, levantá-las para na descida deixar um pé preso às pretensas mãos hábeis de Pedro. Semana passada derrubou duas assim, uma deixou a bunda doendo à beça, outra foi de cabeça. E termina toda noite apelando às bizarras agachadas ou curvadinhas que dá a buscar um pé e realizar a poesia dos movimentos que cria. Os observadores Pedro sempre deixa petrificados em apreensão. Uma vez, preciso reconhecer, foi aplaudido, por certo, de pé. Mas geralmente o pede pra parar o tal gerente que getilmente já o apelidou de Pedro, o buscapé.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

há!

Eu não vou pedir pra você olhar pra mim de novo, deixa estar, não vou não. Mas se quiser olhar, ai de você se olhar. Mulher é pior que luzinha de geladeira. É só olhar pro outro lado que fica mais bonita.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Peito do pé do Pedro (parte 3)


Bom, o doce predileto do Pedro vocês podem adivinhar: pudim. Claro, o melhor doce! Pé-de-moleque, que nada. Moleque sou eu, o pé dele, que a acabo de pegar vocês. Não acharam engraçado? Menos vão achar a brincadeira que ele escolheu pra dar uma cantada na última bailarina que o deixou caidinho. Ela, pelo menos, não riu nadinha. Onde já se viu chamar alguém de super-égua por achar que a dona de um pé daquele tem mais sorte do que se houvesse uma ferradura ali pregada? Pedro, essa foi dura... muito. Mas não tanto quanto a canela que saiu dessa toda dolorida pela bicuda da sapatilha dela.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

falta

Levanta a bola. Mata no joelho. Ajeita no peito. Chuta e...chão. Desistiu e pegou a bola na mão. Bola de meia. Suja, ainda por cima. Do safado do marido, que deixou ela sozinha num sábado à tarde pra ir ver jogo no estádio. Sozinha, não, vai: com um cesto de roupa suja deste tamanho. E se é cesto, vamos lá, lance livre e... cesta!
Mania de homem, ir se despindo pela casa, tacando tudo no chão, peça por peça.Atrás do sofá, uma camisa suada. Um toque de calcanhar, finta no par de chinelos e adentra a grande área! De serviço, claro. Toca a enfiar a blusa na máquina, fechar a bichinha à força. Acabou. Desaba no sofá. Fecha os olhos, respira fundo: um...dois...três. Abre o olho de sopetão. Esse fazer nada não dá.
Sandália no pé, bolsa a tiracolo e bye-bye tédio de sábado. Dar uma volta, mas pra onde? Por aí, tanto faz. Cidade vazia, o mundo parado e a vida girando ao redor de uma outra bola. Na calçada, sentia-se no banco, a única fora da arena verde.Exceto por aquele cara ali. Talvez como ela, fugindo do marasmo do dia de jogo. Andando a esmo. Não. Andando na mesma direção. Dois quarteirões, vira à esquerda. Ele também. Marcação cerrada. Vem chegando. Toque. Ela dribla. Ele se aproxima. Escanteio. Ela tenta fugir. Impedimento. O adversário vem forte pra roubar a bolsa.Embaixadinha nas bolas. Puxa a faca. Mata no peito.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Peito do pé do Pedro (parte 2)


Certo dia, eu já cansado de tanto que ele corria, aconteceu um fato engraçado. Pedro, aquele louco louco por pé de mulher, e que havia calçado em mim mais uma vez aquele tênis velho e apertado, saiu em disparada pelo gramado gamado por uma dona, dona de uma sandália, que deixava nus seus peitos, peitos do pé. Enquanto eu lá ia, sentindo a cada passo as asperezas do solo pela sola desgastada, notei - ele não - que a tal feet-top-less era passada ao lado. Instantes depois, achando a ter perdido, Pedro parou, para meu alívio, e ali viu que deveria voltar. Eu preferiria algum descanso, mas não foi por isso ou maldade que, quando ele virou, esmigalhei com o peso dele o mindinho e o seu vizinho da versão esquerda daqueles pés de moça tão bonitinhos. Pezinhos, por sinal, que não combinavam nada com a boquinha, que abriu um vão bem grandão e soltou cada palavrão mais cabeludo que o outro, perdigotando o peludo rosto de Pedro, agora enxavido e cheio de puxa-vidas. Ainda bem que hoje em dia, já crescido, ele não mais é de bater o pé!

(para ler a parte 3 clique aqui)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

...

Pobre de mim: faz tanto tempo. Se fosse fazer poesia dizia que o calendário é como dente-de-leão. Sopra um vento e leva tudo embora. Não adianta de nada tentar parar o vento lá fora. Mas é como se não passasse, existem lugares onde o tempo pára e estanca. Porque se repete. E se repete. Como o coração que se perde nas selvas porque anda em círculos. Ou porque uma vez chegados, os corações nunca esquecem o caminho. Pobre de mim, faz tanto tempo. Se eu me conhecesse hoje eu me estranharia. Eu, que tinha tanta vergonha de escrever de amor.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

O peito do pé do Pedro (parte 1)

A vida é mesmo cheia de coincidências e paradoxos. Veja o caso desse cara aqui de cima, por exemplo, se chama Pedro e é louco por pé. Não aborda nenhuma mulher se antes não tiver avistado o seu pisante. E qualquer “ela” se torna bela se tiver dedos de Cinderela. Ele, por sinal, sempre acreditou que a Cinderela tinha um pé belíssimo e que foi essa a verdadeira razão da escolha do príncipe, e não o tamanho. “Não há sapato que só caiba no pé de uma única mulher”, repete sempre ele.... E sobre o paradoxo? Ah, sou eu mesmo, como é que o ele pode me deixar assim, aqui, fedendo e justificando a rima chulé? Logo eu, o peito do pé do Pedro, preto, de tão encardido.

sábado, 26 de janeiro de 2008

a R.T.

(1987-2008)

A perda é como uma pedra engolida a seco. Não há líquido gástrico, nem que tanto bata, que fure a dureza da perda. Alguém que partiu, sabe-se lá pra que mundo, torna-se mineral. E parte-nos irrevogável e implacavelmente como o tempo. Ou como a natureza agigantada e geológica que se quebra no mar: morro junto d'água. Como o mágoa do Rio, onde fica a paisagem da beleza e a maior parte daqueles que a construirão em suas agora para sempre nostálgicas memórias.

sábado, 19 de janeiro de 2008

dúvida

"Como confiar os pés aos solos novos se o caminhar sempre nos ensina sobre sua fragilidade e finitude?", fico a me perguntar quando os caminhos mais seguros e estimulantes tem sua porta sempre trancada, enquanto o molho à nossa mão segue abarrotado de chaves... e tenho certeza que alguma delas...

sábado, 12 de janeiro de 2008

estalo

Agora que tive um estalo, dos de vieira e socrático, não quero mais abraçar todo o conhecido espaço. Passo a buscar no recurso mínimo o plástico, como num vaso uma flor verdadeira. Ou colorir borboleta ao brincar, assim, de pic-letra.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

pisa

Se eu te disser que os cadarços dos meus sapatos estão apertados. Você pode achar que eu estou dizendo que estou amarradona em você. Você pode achar que estou falando dos nossos laços. Você pode achar que estou dizendo pra você sair do meu pé. Você pode achar que eu acho que você está me sufocando. Você pode subentender que eu ando enrolada. Você pode interpretar como uma espécie de enforcamento. Você pode ver como uma imobilização que não deixa tirar os pés do lugar. Você pode enxergar um milhão de coisas. Mas você nunca olha para os meus sapatos.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

dora

Vermelho, amarelo e lilás. Sempre as mesmas cores, mas tudo bem. De qualquer jeito são as únicas bonitas do estojo. O céu vermelho, a árvore lilás, o lago amarelo. A professora faz careta. Dora faz que não vê. São as únicas que valem a pena, as únicas bonitas do estojo, as únicas bonitas no mundo todo (ela usa meias amarelas, calça lilás e blusa lilás. A vermelha estava lavando). Dora Maria, árvores são verdes. Pior pra elas. Também não existem lagos amarelos. Parece que fizeram xixi. Dora ri. Sempre ri com palavrões. Gosta ainda mais se faz alguém ficar vermelho. A senhorita faça o favor de fazer outro desenho. Faço sim, fessora. E quero ver azul, rosa, laranja, verde...Aqui fessora. O lago vermelho, as montanhas amarelas e o céu lilás. Dora Maria, não foi assim que eu pedi. Mas professora eu nem sequer tenho as outras cores. Abre o estojo: lilás, amarelo e vermelho. E uma porção de canaletas vazias. Nos estojos de cada crianças, mais uma cor que não vale a pena.