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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

rehab.

o torpor. os efeitos se estendendo por horas depois da absorção daquela dose. os olhos fechados. o arrepio. o querer mais. a bad trip das questões que não passam pelo fino filtro frio das convenções morais.
a insônia. o girar da cama. o delírio.
o prenúncio do vício. os neurônios a mil sinapsando avais e recursos para a manutenção daquela onda eletromagnética de fechar os olhos.
no dia seguinte, a inexplicável calmaria. mas a certeza de que só dura alguns dias. até o corpo me pedir mais. me torturar com as câimbras da abstinência. se perder na leveza de ser um corpo sem o peso d'outro corpo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

tectônica.

é preciso fechar os olhos parar que mundo aconteça. desde que o mundo é mundo, ele não gosta dessa coisa da prisão que é o olho das gentes. ele só acontece quando a gente, de olhos fechados. ele só acontece quando a gente, de costas pra ele. ele só acontece quando ele pode se mexer escondido da gente. porque algum homem de fé amarrada disse do mundo o lugar das coisas imóveis. e o mundo, todo ele, conspira pra deixar a gente conformar essa mentira.
mas é só fechar os olhos. uma a uma e pra cada pessoa que desatenta, uma pedra pula do fundo da terra e liberta sua natureza dançante.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

miocárdio.

eu gosto quando as coisas adquirem um caráter simbólico. eu gosto quando cada passo denuncia uma história, quando cada palavra crava fundo e traz com ela um naco de carne quando a gente puxa. eu gosto quando eu sinto o coração parar e sinto a marola do sangue parado irradiando pra cada célula do meu corpo e por um instante parece que o mundo parou e que eu sou a única partícula se movendo, giro-espanando no espaço. e a inércia que dura menos que um instante é interrompida pelo pulsar de todo o meu corpo: ondas de arrebatamento saindo de alguma cavidade cardíaca, ecoando até a última célula do último fio de cabelo que brota do cocuruto. e mais uma vez. e de novo. até ser possível prever um padrão de intensidade e frequência. e é como se ele reaprendesse a se contrair e relaxar, fazendo com que o sangue flua mais espesso e me carregue pro que quer que seja a frente.
e eu me deixo ir.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

boa educação.

eu vou te levar pela mão na íngreme ladeira das minhas idéias e te mostrar cada cômodo da propriedade das minhas lembranças. eu vou deixar que você prove da doçura da minha cozinha e que você se encante com o canto dos pássaros que cantam na minha janela. eu vou te dar a chave da porta da frente e um edredon quentinho pra te embalar nas noites frias. eu vou te explicar como organizei os livros e deixar que às vezes você escolha uma música pra colorir o dia. eu vou dizer pra que você se sinta à vontade para tirar os sapatos e ser você-todo. eu vou deixar você dormir enquanto eu saio.

mas que você se atente ao aviso escrito em letras pequeninas no rodapé da sala de estar: essa casa é minha e aqui não existe o direito de você trocar as coisas de lugar.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

427, apto 23.

não sabia os truques da casa nova. não tinha aprendido os passos certos pra se mover no escuro e não tinha educado o corpo pra se esconder dos medos num movimento rápido. o cheiro forte de tinta, os estalos dos móveis, a alergia e o susto a impediam de ter um sono tranquilo.
abriu os olhos e esperou com angústia os instantes para sua retina se adaptar à luz-pouca. viu os 143 livros empilhados no chão. as roupas amontoadas em 7 caixas a alguns metros da cama. viu o corpo dele dançando no balanço da cortina. ouviu o choro do filho que eles não tiveram. viu a mão. se confundiu com o brilho da capa dos 27 cds que couberam a ela no amputar de sua vida antiga. viu o punho. fechou os olhos. sentiu a dor.
tinha levado consigo mais coisas do que se poderia contar com números. tinha levado mais peso do que era possível carregar.

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um prazer postar aqui.
mesuras aos companheiros de blog e saudações aos leitores.
nos vemos às segundas.