sábado, 25 de agosto de 2007
Biografia Breve de um Morador da Estação
Nasceu lindo como a primavera e foi um quente jovem de verão. Na maturidade já era inverno e caiu morto como as folhas no outono.
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
febril
passar um dedo pela gola da camisa, sem tocar o pescoço. Revelar um pedaço de carne branca e marcá-la com os lábios, deixar meu sinal queimando, como quem marca seu gado.
sábado, 18 de agosto de 2007
manhã
Abriu os olhos, acordou. Estava de lado no lado da cama de casal olhando pra fora. Viu o banheiro... Ué, mas peraí, o quarto dele não é suíte, opa! Leva um susto olha ao redor, estava sozinho no quarto, olha de baixo do cobertor, opa! Outro susto, está nu! A memória vem se aproximando, flashes da noite passada: a festa, as cervejas, a conversa com o caso secreto antigo... Ih, quer dizer, o caso que agora era secreto. Reconheceu o quarto mas não o próprio cheiro. E por que ele está sozinho ali? Levanta, dor de cabeça, abre a porta, opa! Você está pelado rapaz! Ih é, volta, veste a cueca e a calça... hmmm... o quarto esta arrumado, as roupas estão arrumadas. Mas por que ele está sozinho ali? Segue, ninguém no quarto ao lado, a dor de cabeça, chega a sala, ah, aí está ela. Deitada coberta na sala. Vendo televisão. A mão em movimento. Por debaixo das calças. Pela porta da frente.
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
carmen
Comendo carne se sentia melhor. Cravar os dentes e puxar, imaginar músculo se descolando do osso, as fibras, as cartilagem, a vida que passou por ali. Saber que o bicho viveu, respirou, olhou pra cima e foi feliz. De que outra forma se explicaria tal suculência. O amor pela vida deixa um cadáver suculento. E para não dizer que desta vida não se leva nada, acompanha fritas e arroz. Comendo carne afirmava: aqui houve vida. Esses vegetarianos são todos uns necrófilos.
sábado, 11 de agosto de 2007
Fico
Algumas decisões na vida a gente toma assim, como se estivesse escolhendo que poltrona sentar no ônibus quando não há nenhuma janela vaga. Foi desse jeito que Fico decidiu tomar café preto na padaria àquela manhã. Para ele, tomar cafezinho naquele copinho de vidro era também uma espécie de boemia. E ali, numa quase esquina de Copacabana tinha glamour equivalente ao das cigarrilhas daqueles filmes antigos. E chatos. Os humildes-velhinhos-íntimos-das-atendentes que perpassavam aos montes também lhe davam um sentido especial ao lugar. Estranho, mesmo. Talvez Fico visse incríveis experiências vividas se espremendo por entre as rugas e sorrisos dos simpáticos - alguns reclamões - grisalhos...
Tudo bem, algo nesse nome "Fico" lhes deve estar causando estranhamento. Explico, vem de Francisco, mas por alguma razão até hoje desconhecida sua avó sempre lhe chamou assim. Como é diferente e soa engraçado, pegou o apelido.
Tudo bem, algo nesse nome "Fico" lhes deve estar causando estranhamento. Explico, vem de Francisco, mas por alguma razão até hoje desconhecida sua avó sempre lhe chamou assim. Como é diferente e soa engraçado, pegou o apelido.
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
e tudo bem
Esqueceu o brio e lutando contra o frio lhe disse Ficaremos bem. Ajeitou o casaco, pôs o gato num saco e lhe disse Ficaremos bem. Subiu e desceu o monte, parou sobre a ponte e lhe disse Ficaremos bem. Se inclinou no parapeito, deixou a mão afrouxar o aperto e lhe disse Ficaremos bem. Viu o saco afundar na superfície, sorriu como se não visse
e disse.
e disse.
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
rayito
Se arrastava pelo sótão com correntes. As correntes, não sabia porquê. Talvez por comodismo, por ser o que lhe diziam a respeito de fantasmas. Por já não saber quem era; Apenas que morrera. Um dia levantou uma telha, estava tão bonito lá fora. Tão bonito. Atravessou a porta do sótão, desceu as escadas, as correntes arrastando atrás. Atravesssou a porta da rua e apertou os olhos pra luz não doer. Bobagem. Não tinha olhos. Manias que a gente pega com a vida e depois é difícil de se livrar. Um passeio pela calçada, uma ida ao parque, alguns impulsos (seria o vento?) no balanço. Voltava pro sótão sem perceber que esqueceu no caminho as correntes. E, mesmo pra um fantasma, flutuava mais leve.
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