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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

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Queria tatuar meus ossos, escrever cartas secretas aos médicos e a quem olhar para um eclipse usando minhas chapas de raio-x, arabescos onde um dia poderão se aninhar os vermes, instruções visíveis em caso de fratura exposta. Queria tatuar meus ossos, com corações e bandeiras e flores de marfim, trechos de livros, símbolos celtas, violinos, ovelhas e violões, pequenos experimentos em marchetaria.relevos apagados aos poucos, ao viver, desenhos que se desfazem em giz, quando a osteoporose chegar.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

reflexão

jamais conheci um espelho que fosse imparcial. reparou? de um espelho para outro, a gente nunca é igual. o espelho do meu banheiro acha minhas sobrancelhas felpudas. o do armário me acha magra se virada à direita e gorda à esquerda. O do hall gosta da minha cintura. o do banheiro do trabalho diz que meu queixo é grande, os vidros do metro me pintam modigliani (longo pescoço mas sem luz nos olhos), as portas reflexivas de elevadores casariam comigo se pudessem. projetam o que somos ou o que veem? como me saber bonita se jamais conheci um só espelho objetivo, isento e honesto? me vejo nos que me amam e esqueço pra sempre do resto?

segunda-feira, 7 de junho de 2010

estante

O amor é um velho que se perdeu no caminho – falo de amor como quem discute o sexo dos anjos, eu, que pouco rocei a pele desse sentimento. Um presente que veio sem as pilhas no natal e nunca funcionou como devia, com que me divirto à força de faz-de-conta, de fazer voar num canto da sala, um brinquedo que eu tenho mas que não obedece o botão de liga. Nada a fazer senão admitir derrota ou fazer uma figa. Ou seguir vivendo com um errei na barriga.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

engasgado

É assim que acaba, é assim. Sem música tema e sem créditos finais. É assim que acaba, o pingüim de geladeira quebrado em preto e branco no chão, que a Maria vai por num pano de prato e botar lá fora. O copo de leite deixado em cima da mesa e podemos dizer que isto foi há tempos. Por causa do soro flutuando, por causa da massa branca, irmã mais nova do iogurte. É assim que acaba. Sem a palavra adeus, sem um bilhete, sem miolos esparramados no chão. Acaba por inanição. Definha de fininho e quando você vê não está mais lá. É assim que acaba. Sem última valsa, sem assinatura no cartório. Sem divisão igualitária de bens. Caixas e caixas de papéis e objetos para empoeirar. Comida de cupim. Acaba como o cisco que o vento levou. Não morre, adoece. Não se espatifa, fica suspenso. No ar. Pra sempre. E se cair, ah, bom. Não vai ter ninguém pra ver.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

paquetes

O melhor presente não tem embrulho, não vem com pilhas e não pode ser engolido por crianças de zero a 3 anos.

O melhor presente não dá pra comprar na loja de brinquedos nem na de eletroeletrônicos. O melhor presente não pode ser escondido na meia no dia do natal, não cabe numa caixa, não cabe numa casa inteira.

O melhor presente não é de pano, não é bordado, não tem rótulos nem etiquetas. O melhor presente não pode ser vendido separadamente. O melhor presente não tem cor e nem é lavável. Não dura pra sempre mas não desmancha com o tempo. O melhor presente tem gosto de bolo e cheiro de terra. O melhor presente não tem altura suficiente para andar na montanha russa.

O melhor presente é algo que quase todo mundo já teve mas que é fácil, tão fácil de perder. O melhor presente é só seu até o dia que você esquece onde pôs.E que um dia encontra, sem querer, esbarrando com os dedos como quem acha dinheiro velho perdido nos bolsos de um casaco. O melhor presente é algo que você já teve. E que você também pode dar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Não é nada não. Nada além de um pensamento para acariciar nas horas mais escuras. Minha arma secreta. A pílula de veneno metafórico escondida no molar. Nada além disso, de uma saída de emergência para o dia em que a barra lembrar que é de chumbo e pesar. Por mais improvável que seja, mesmo que não seja nada não. Sou só eu, no apertar das horas, me dizendo que existe alternativa. O conforto de enrolar os dedos nos cachos de uma criança
que não vai nascer.

domingo, 26 de abril de 2009

Se eu falo de amor é por pobreza de espírito, é mendicância intelectual. É falta de crivo, é pouca leitura de jornal. Se eu falo de amor é por estar indisposta, por ser absolutamente banal; é por não pensar noutra coisa, é por loucura informal. Meu coração é feijão com arroz, repetitivo que só. Bate por insistência, desconfio que seja por dó. Meu coração funciona aos trancos, deve ser perrengue no miocárdio. Se eu falo de amor é por luxo, é para exercitar o músculo e é um exercício árduo. Se eu falo de amor é que eu torço: assim quem sabe eu não ouço aquilo que eu não falo.

quarta-feira, 11 de março de 2009

farolete

Como o cervo que estaca no meio da rua, no centro geométrico, cujas juntas e ângulos solidificam no chão enquanto os faróis se aproximam. É assim. É pelo medo que a gente fica. A covardia com dedos frios enrodilhando o tornozelo. O medo é o que chamam de sensatez. São os 28 motivos que nos dão pra ficar. Pra não fazer o que seria justo e querido. E se? Melhor não. Racionalidade, a forma civilizada de fazer xixi na calça. E a coragem, bem, que seja atribuída às pessoas levianas, insensatas. Felizes. A gente fica porque tem medo. A gente vai porque quer.

domingo, 21 de dezembro de 2008

verano

É preciso aproveitar o calor destes dias, o sol que afaga sem ferir, as férias passageiras que podem morar em qualquer caminhada. É preciso admirar o reflexo conjunto da luz sobre os carros, espelhos e pára-brisas transformados em um bilhão de estrelas. É preciso cultivar e contabilizar as pintas, aumentar o patrimônio a ser controlado por um dedo demorado sobre a pele. É preciso ter paciência com a preguiça, cozinhá-la em fogo lento ou embalá-la em rede de algodão. É preciso querer as coisas boas todas, como em um álbum de figurinhas onde se permitem as repetições.É preciso olhar para o sol até que o branco aumente até tomar tudo, é preciso se cegar e desaprender as cores e perambular pelo mundo às custas das próprias mãos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

tsc

Eu acho feio, eu não entendo essa gente que não consegue ler um livro que não ganhou um Nobel, ouvir uma música que não toque na rádio, ver um filme que não tenha 4 estrelas, que não tenha a menor curiosidade de saber algo que não sabe, que tenha medo de descobrir por si só, que tenha vergonha de se perder nas pequenas selvas de uma biblioteca, eu tenho pena, eu acho triste, seguir à risca os guias e pedir sempre a especialidade do restaurante da moda, eu acho feio, eu acho foda, quem depois de um comentário troca de opinião sobre um artista, quem aplaude um bailarino mas não um trapezista, e não, não acho culto, por mais que alguém finja, só gostar de pintores que tem nome de tartarugas ninja.

domingo, 16 de novembro de 2008

composição

Não é preciso ser bom na hora, não é preciso sequer que seja meio bom. Basta que crie memórias, que seja matéria prima para imaginação fazer suas obras. Que é o que me sobra. Os círculos e as volutas e o castelos de cartas incertos e vacilantes. Pode ser pouco, pero é o bastante. Energia para a espera, a longa hibernação, La petite mort. Basta umas poucas imagens, recortadas para que eu possa montar ao meu bel-prazer em infinitas colagens, trocando a ordem das mãos, embaralhando as pernas, redobrando cuidados. Oh não, na hora não é preciso que seja bom.
Basta não ser perecível.

domingo, 9 de novembro de 2008

do que se perde

Você foi meu muso mais fiel, meu (cuidado, vou usar uma palavra aterrorizante) meu amor mais impossível. Mas antes de tudo, depois de tudo, você era a pessoa para quem eu contava tudo. Não havia nada pequeno demais ou grande demais. Nada bobo demais ou indesculpável. E te ver era descortinar o sol, era alguma perfeição rara e inexplicável desses momentos que não pertencem à realidade e contrariando todas as possibilidades, acontecem, simples assim. Eu te escrevia cartas, longas e curtas, talvez apenas um bom dia para cada manhã, aquelas cartas com minha assinatura mas sem teu endereço, nossas cartas embaralhadas e confusas, sem destinatário certo.
Só que escrever, escrever é construir labirintos e isto é tudo o que fazíamos, aumentar as paredes e depois virar as esquinas e dar com finais abruptos sem poder olhar por sobre as ameias, sem poder mais do que chamar seu nome e seguir virando ângulos e cruzando umbrais.E foi vagar por este labirinto sem um fio de Ariadne, essa longa e exasperante teia de muros, já faz tanto tempo que eu já não sei, se me visses agora, se eu seria tua saída ou teu minotauro, se erraríamos juntos ou nos tatearíamos sem nos reconhecer no escuro, como mais um trecho de pedra, outro pedaço de muro.

domingo, 2 de novembro de 2008

magritte

Parece estúpido eu sei.
Se apaixonar por um chapéu. Mas foi o que aconteceu, justo por um chapéu, como se ele usasse bigode ou lesse Borges ou jogasse squash. É que ele pairava acima de todas as pessoas comuns. É que ele era algo estático num mundo que não pára de girar jamais. Algo em que se pode confiar. E foi assim, desse jeito besta, me apaixonei por um chapéu. Veja bem: pelo chapéu. Não me entenda errado, porque quando eu olho para você, estou olhando para o chapéu e quando falo com você, estou falando com o chapéu. Eu passaria reto por você na rua, se você estivesse com a cabeça nua, eu mal te reconheceria, tentando me lembrar agora, eu mal consigo reunir dois fragmentos que te formem um rosto. Não me entenda errado, querido, você sempre estará à sombra desse seu chapéu.
Quando eu penso em você, estou pensando no chapéu. Não me entenda errado.
Quando eu beijo você. Eu só estou tentando encontrar um espaço sob as abas.

domingo, 12 de outubro de 2008

ensaboa

Tua memória tem desbotado tanto. Já está nos últimos tons de rosa e não demora a sumir. Teu rosto é uma nódoa removível com água morna e sabão sapóleo. Tudo quase bolha e espuma. Tudo indo longínquo na bruma. O pergaminho se esgarça, da próxima vez se imprima em pedra. Em mim. Que daí já nem com areia. Que nem esfregando com força e tempo. Que a imagem se deforma, mas não vai. Pra não depender de nenhuma das cores do espectro. Pra nunca deixar
De me assombrar.

domingo, 5 de outubro de 2008

incidências

A nova garota dele tem o mesmo nome que o meu. Pior, tem os cabelos cacheados e a pele branca, mas não se engane, não se parece comigo. A intersecção é bastante para nos parecermos numa descrição superficial de parágrafo de livro, duas ou três palavras com quem alguém acha que definiu uma aparência.

Basta eu dizer isto: você jamais me confundiria com ela na rua. Cachos apertadinhos e brilhantes como aqueles que se fazem com tesouras em fitas para colar em presentes. Ademais, sabe se vestir, não é uma desengonçada feito moi.

Tem uma carinha de estúpida, mas é, sim, bonita de verdade. Não digo para ser má, é que brincamos todos de conversar, pinguepongueamos idéias e bobagens. Ela aperta e pisca os olhinhos como se fosse míope. Como se fosse míope e não estivesse usando os benditos óculos. Quando quer participar, cospe um absurdo que se vê logo de onde vem, tem um abajur sobre a mesa e ela diz “abajur”, um completo fracasso para o dadaísmo.

Me distraí, sinto muito.
A nova garota dele tem o mesmo nome que o meu e o bêbado, o tonto, o parvo se engana. Não sei, o dedo escorrega e ele manda as mensagens que eram para ela para meu Messenger, meu celular. Amor, vou me atrasar. Tenho saudades. Um grande beijo.
Quando eu sei perfeitamente que não são para mim.
Só não sei se ele sabe.

domingo, 28 de setembro de 2008

dedos

e já que falávamos de esmalte...

Esmalte não é cor, meu amigo, os vermelhos, os marrons e os pinks no fim das contas se parecem e não há por que preferir esta cor à outra. Esmalte é gênio na garrafa, é desejo escondido de se por nas pontas dos dedos, é luz de farolete pra chamar a própria sorte. Daí convém, como poções que são, que tragam o rótulo, o nome, a função, a face que vem - pérola, luxo, magia, cravo-e-canela, atração fatal, paris, condessa, cigana, gabriela, fortuna, malícia, pecado, final feliz. Esmalte, amigo, não é cor nem vaidade nem nada daquilo que você pensava. Esmalte, amigo, é mandinga da brava.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

de favor

Dona vizinha, por gentileza, cuide bem do meu menino, ele só bebe água de perfume, ele come semente de mamão, ele se agarra nas saias de filó. Senhora dona vizinha, isso eu te peço mais encarecidamente que aquela xícara de açúcar, olha por ele em dobro nos dias ímpares que ele tem qualquer coisa de extraordinário. Ele não se descomporta, falo sério, nunca vi. Nunca pintou parede com maquiagem e nunca passou meu rímel nas franjas do carpete. Ele sabe dar cambalhota, está aprendendo a fazer compota, às terças e quintas dê-lhe chá de bergamota. Vizinha, minha vizinha, cuida bem do meu menino. Que ele não sabe como é que eu fico sem ele. Que ele não faz a menor idéia.

domingo, 7 de setembro de 2008

mestre et pupila

Eu vi o menino se debruçar através dos olhos do homem, a alegria de uma bobagem, uma alegria qualquer. Eu vi as coincidências armarem suas linhas pelos meus aposentos, as coincidências que ligam as angulosas geometrias dos lugares que a gente freqüenta. As coincidências que a gente inventa. Letras coloridas e orelhas de caderno. Pequenos infernos particulares. Nossos demônios, eles também precisam de lares. Eu vi as coincidências brandas ou assombrosas, escamosas ou divertidas. Vi nossas figuras no espelho, iguais, pero invertidas. Que é como é a minha imagem que tu guarda, miniatura de ponta cabeça na tua retina.Eu, que por ventura já fui a menina
dos teus olhos.

domingo, 31 de agosto de 2008

Enquanto encostava o meu queixo e a minha testa contra os ferros, a coluna bem torta para alcançar a altura correta. A luz se acendeu no fundo, para um olho só. Embaça, duplica e depois fica perfeita. Uma estrada sinuosa, um balão colorido, um céu azul. Foca no balãozinho. Obedeço. E agradeço. Em uma máquina dessas, imagina cada coisa que eles podiam nos obrigar a olhar. Dentes amarelos, splashes publicitários, um espelho,baratas com as perninhas para cima, mas em vez disso um balãozinho singelo. Não contenho o sorriso.
Agora já pode piscar.
Depois, uma porção de lágrimas quentes de belladonna, os contornos fogem como se deus (o grande colorista) tivesse esquecido que a gente deve pintar sempre para dentro das linhas. Isso eles fazem por gentileza. Para nada destruir o eco daquela última imagem de dentro da retina.

domingo, 24 de agosto de 2008

sunken

Eu sinto falta dele. O pensamento veio do nada, despontou duma corrente contrária que falava de plantas e canteiros entre as ruas da cidade. Ficou ecoando feito um tabefe, um peixe morto que caiu do céu. Era preciso encontrar outra coisa em que se pensar. Rápido. Quantas pessoas já tiveram um silêncio desconcertante consigo mesmas? Como sem querer tocar num tabu e a sala se virar pra você de repente. Como se eu tivesse chorado no seu casamento. Como se eu tivesse gargalhado no seu funeral.