domingo, 2 de novembro de 2008

magritte

Parece estúpido eu sei.
Se apaixonar por um chapéu. Mas foi o que aconteceu, justo por um chapéu, como se ele usasse bigode ou lesse Borges ou jogasse squash. É que ele pairava acima de todas as pessoas comuns. É que ele era algo estático num mundo que não pára de girar jamais. Algo em que se pode confiar. E foi assim, desse jeito besta, me apaixonei por um chapéu. Veja bem: pelo chapéu. Não me entenda errado, porque quando eu olho para você, estou olhando para o chapéu e quando falo com você, estou falando com o chapéu. Eu passaria reto por você na rua, se você estivesse com a cabeça nua, eu mal te reconheceria, tentando me lembrar agora, eu mal consigo reunir dois fragmentos que te formem um rosto. Não me entenda errado, querido, você sempre estará à sombra desse seu chapéu.
Quando eu penso em você, estou pensando no chapéu. Não me entenda errado.
Quando eu beijo você. Eu só estou tentando encontrar um espaço sob as abas.

3 comentários:

Leandro Jardim disse...

a czarina tira cada uma da cartola... muito bom!

Sabrina Sanfelice disse...

Me lembrou uma cena do filme "Jornada da Alma" (The soul keeper) em que "Sabina" encontra Jung e, ao invés de dizer o que sente a ele mesmo, vira-se e diz tudo para um homem estranho que está ao lado...

...perfeita cena, perfeito conto.

R disse...

Genial e deliciosamente nonsense!
Cazrina rules! - sempre digo!!

Bjs,
REMO.