sábado, 17 de novembro de 2007
Benedito
Benedito leva a vida sem vacilo mas suspeita que está tudo pelo avesso. Sente que o endereço do perigo está no meio da rotina na esquina com o anseio. Um belo dia no almoço esgotou a paciência e de uma jeito meio grosso revelou a nova crença que "assim não vai dar, tudo fora do lugar". E ele sempre soube o que era isso: tantas regras, tantas verdades, algo disso deve ser mentira. "Me tira desse caminho" era o que dizia esse menino. Ser louco como o mundo? Preferia ser são sozinho. Pois viver com tão poucas escolhas... não queria essa coisa, de poder resumir num cartão de visitas. Mas o Benedito não é anarquista, só veio mostrar para o mundo um novo ponto de vista. Sem querer adivinhar, nem fazer leis ou professar o que é bom pras outras pessoas. Ele sabe de si. E aos outros só quer vivendo numa boa.
sábado, 10 de novembro de 2007
Entreouvido no bar
Quanto mais gelada minha boca melhor, é a razão do meu interior molhado. Os homens me olham e se expremem em feições de deleite, deve ser por que sou loura. Algumas mulheres também. E os enlouqueço, me solicitam, me agarram, me fazem seu bel prazer. Tudo efêmero, logo me sinto usada, são tantas de mim que sou rapidamente trocada. Às vezes a troco de tão pouco ou quase nada. Objeto: talvez por isso seja eu assim tão fria. Oh Deus por que veio me fazer tulipa?
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
Bisconto
Biscoitilde mora na terra dos doces. Todos os dias a mãe dela faz o seu prato, refeições balanceadas contendo os três principais grupos alimentares: chocolates, balas e biscoitos. A terra dos doces é complicada porque tudo é feito de doce. Até a escova de dentes. Pra não falar que a pasta de dentes não só tem sabor de caramelo como é feita de caramelo. Por isso, Biscoitilde (como as outras crianças) é desdentada. E apesar disso ser perfeitamente natural na terra dos doces, às vezes causa certo estranhamento quando Biscoitilde visita sua tia em outra cidade. Mas não tem problema, ela descobriu. É só vestir sua camiseta do Corinthians que ninguém repara.
sábado, 3 de novembro de 2007
fumaça
A fumaça faz par de dança com o vento. Se está densa, chora chuva. Já se é queimada, foge escura. Agora veja, quando outrora sai de trem - seja vai, seja vem - sinaliza o movimento. E passa.
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