sexta-feira, 31 de outubro de 2008

meia luz

era o crepúsculo. ela se emaranhava em um nó de dores e desejos. talvez o chamasse de saudade. mas era só o crepúsculo. alguns cientistas - ela havia lido certa vez - demonstraram que muito do que sentimos - aparentemente no âmago ou alma - é pura química corporal. e passou a pensar na paixão avassaladora como uma maldição, um ente cruel, um maligno alquimista de seu ser. mas era só o crepúsculo. nem ela, nem os tais cientistas - talvez alguns poetas apenas - entenderam o poder da meia luz a esvair-se. toda nostalgia-depressão-ou-mera-tristeza será sempre filha do assombro da hora em que o dia cede ao breu. até que a noite cai, esparramam-se letreiros, promessas e postes se acendem. enfim, a luz novamente, ainda que outra. e torna tudo mais fácil, mais indolor. ou pior, esperançoso. e depois a aurora.

(ispirado nesse texto de Jaque Lima:
http://jaque-lima.blogspot.com/2008/10/tarde-noite.html)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

um conto chamado situações (parágrafo 4 de 4)


Um ano antes, a moça que fora dama de honra dessa festa pagã via pela primeira vez o Robertinho. E quase chorou de comoção com o sorriso mútuo à primeira vista. Robertinho, por sua vez, demorou a contá-la que era herdeiro de um vasto patrimônio financeiro construído pelo avô. Antes, preferiu encantá-la com seus dotes artísticos, exibindo seus quadros, até interessantes, mas que juntos nunca chegariam a valer perto de um milésimo do que aquilo que herdaria por sua fortuna genética. Algum tempo depois, eles perderam juntos suas virgindades. E o dia mais feliz da vida dela foi quando, aos 21, recebeu de Robertinho o pedido de casamento no café de uma livraria em Paris. Perceberam bem?, o dia mais feliz da vida dela. O que me deixa triste, dado que viveu até os 89 anos de idade, três filhos, cinco netos, alguns amigos, outros nem tanto, muitas festas, lágrimas e toda aquela coisa.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

um conto chamado situações (parágrafo 3 de 4)


Pois, no andar de baixo, um menino de 3 anos que ouvia a gritaria e o som das pancadas começava a chorar. Tal garoto, já devo antecipar-lhes, por sua vez, não teve uma vida das melhores, ou das sonhadas por seus pais. Aos 10 anos de idade foi iniciado sexualmente por sua instrutora na colônia de férias, esta aos 17 à época, durante a calada de uma noite fria, em um colchão muito pelo contrário. Mas não sintam pena por isso, dado que o rapazote agradeceu aos céus sua precocidade e as vantagens que passou a possuir, então, sobre os coleguinhas. Precocidade essa confirmada quando aos 15, aí sim, engravidou a namorada. Por isso, foi posto a trabalhar desde cedo. Depois teve uma overdose aos 18, e veio a falecer enfartando aos 41 enquanto curtia a festa de um ano de casamento com sua terceira esposa.

(clique aqui e leia o parágrafo 4)

domingo, 12 de outubro de 2008

ensaboa

Tua memória tem desbotado tanto. Já está nos últimos tons de rosa e não demora a sumir. Teu rosto é uma nódoa removível com água morna e sabão sapóleo. Tudo quase bolha e espuma. Tudo indo longínquo na bruma. O pergaminho se esgarça, da próxima vez se imprima em pedra. Em mim. Que daí já nem com areia. Que nem esfregando com força e tempo. Que a imagem se deforma, mas não vai. Pra não depender de nenhuma das cores do espectro. Pra nunca deixar
De me assombrar.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

um conto chamado situações (parágrafo 2 de 4)


A alguns metros dali, em um apartamento muito bem decorado, a pesada mão de um homem alto e um tanto fora de forma estalava sobre o rosto de uma bela mulher, cuja idade real faria qualquer um crer que a carteira de identidade era por demasiado exagerada. Os xingamentos de puta, piranha, vadia, eram proferidos aos brados pelo homem fora de si. E que, a certa altura, já começava a ditar regras novas sob as quais aquele lar (sic) seria regido. Os ouvidos da mulher deitada, úmidos das lágrimas que o assolavam, sabiam que não havia veracidade em nada daquilo que lhes ressoava. Naquele instante ela tinha certeza de que a relação se encerrava em definitivo. E, apesar do rosto ardendo, não se arrependia um orgasmo sequer. O homem, ainda turvo em seus pensamentos baqueados, sentia que se ela soubesse de todas as suas aventuras poderia taxá-lo de injusto, mas precisava tomar a atitude que a vida lhe ensinara adequada a um homem naquela situação. É possível que esse pensamento tenha disparado nele uma crise de choro logo em seguida, mas não tenho certeza disso.

(clique aqui e leia o parágrafo 3)

(clique aqui e leia o parágrafo 4)

domingo, 5 de outubro de 2008

incidências

A nova garota dele tem o mesmo nome que o meu. Pior, tem os cabelos cacheados e a pele branca, mas não se engane, não se parece comigo. A intersecção é bastante para nos parecermos numa descrição superficial de parágrafo de livro, duas ou três palavras com quem alguém acha que definiu uma aparência.

Basta eu dizer isto: você jamais me confundiria com ela na rua. Cachos apertadinhos e brilhantes como aqueles que se fazem com tesouras em fitas para colar em presentes. Ademais, sabe se vestir, não é uma desengonçada feito moi.

Tem uma carinha de estúpida, mas é, sim, bonita de verdade. Não digo para ser má, é que brincamos todos de conversar, pinguepongueamos idéias e bobagens. Ela aperta e pisca os olhinhos como se fosse míope. Como se fosse míope e não estivesse usando os benditos óculos. Quando quer participar, cospe um absurdo que se vê logo de onde vem, tem um abajur sobre a mesa e ela diz “abajur”, um completo fracasso para o dadaísmo.

Me distraí, sinto muito.
A nova garota dele tem o mesmo nome que o meu e o bêbado, o tonto, o parvo se engana. Não sei, o dedo escorrega e ele manda as mensagens que eram para ela para meu Messenger, meu celular. Amor, vou me atrasar. Tenho saudades. Um grande beijo.
Quando eu sei perfeitamente que não são para mim.
Só não sei se ele sabe.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

um conto chamado situações (parágrafo 1 de 4)

Depois de algumas horas de bastante comoção entre muitos na igreja, a festa do casamento já corria solta quando todos voltaram-se para os noivos atrás do bolo. Alguns adolescentes sugeriram a seu jeito galhofeiro cantar um parabéns pra você. Os convidados mais alegres riram da brincadeira, outros irritaram-se mandando-os calar a boca, enquanto uma outra jovem, essa do tipo mais introspectiva, ponderava que para o casal aquela seria, mesmo, uma data querida onde todos torciam por muitas felicidades, muitos anos de vida. Essa moça também reparou que escorria uma lágrima no rosto da conjugue da noite pintando uma tarjinha preta em seu rosto ao carregar a tinta da sombra da maquiagem em seu olhar. Era justamente o momento em que a noiva se lembrava de que só ela sabia o quanto tinha batalhado para chegar até ali. Eis que havia alcançado a sua coroação, dali pra frente os louros, supunha comovida.