Mostrando postagens com marcador jardim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador jardim. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

esconderijos e encontros

Um menino, uma criança bem pequena, se esconde atrás da porta de treliças de um armário, possivelmente perto dos dois anos de idade. Por ser ingênuo, ou talvez já previr o destino próximo, ou querê-lo, deixa a porta entreaberta, os pés ainda no chão a escorregar por debaixo dela, pontas à vista. Uma pista decisiva para o homem, por certo ainda jovem, que o persegue. Ao encontrá-lo, o toma debaixo de um braço. O menino esperneia, mas assim mesmo é levado para o cativeiro: o lado da cama encostado na parede. De onde o garoto tenta escapar do homem que na outra extremidade o prende. E consegue escapar! Retorna às pressas a – acredite – o mesmo esconderijo. E em segundos a cena inteira se repete. E tudo de novo umas quinze vezes, pelo menos (numa contagem evidentemente mais emocional do que precisa). Tudo isso às custas de muita gargalhada e de uma alegria envolvente de ambos. Essa é a primeira lembrança que tenho da minha vida, tal brincadeira com o meu pai, numa terra distante e fria, que não combinava com nossos corações já tão brasileiros. Depois, o tempo. Com suas felicidades outras, percalços, amores, lições e desaprendizados. Hoje o menino cresceu e, ninguém sabe bem por que, não havendo mais portas de treliças à volta, esconde-se atrás de palavras e suas entrelinhas. E o pai, que nunca foi tanto de poesias e literaturas, curiosamente o segue perseguindo. Nos novos tempos as pistas não mais são óbvias. Mas é mais maduro também o homem que observa e paciente as destrincha, como se sempre houvera sido leitor voraz. E talvez o tenha sido, mesmo, não de livros, mas do filho, este que ainda se alegra a tal carinho.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

parotempo

Agora eu entendi porque ela diz que a essência da literatura russa é a paixão. E noto isso pelo jeito que seus cachos castanhos caem improvisando sobre as bochechas, enquanto pouco acima a umidade dos olhos tenta esconder a leveza do sorriso. Às vezes o tempo pára mesmo, e os detalhes gritam sua presença um a um. Não há como não senti-los todos juntos a esse instante, descrevê-los, antes mesmo do novo tic do ponteiro. Tac.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

meia luz

era o crepúsculo. ela se emaranhava em um nó de dores e desejos. talvez o chamasse de saudade. mas era só o crepúsculo. alguns cientistas - ela havia lido certa vez - demonstraram que muito do que sentimos - aparentemente no âmago ou alma - é pura química corporal. e passou a pensar na paixão avassaladora como uma maldição, um ente cruel, um maligno alquimista de seu ser. mas era só o crepúsculo. nem ela, nem os tais cientistas - talvez alguns poetas apenas - entenderam o poder da meia luz a esvair-se. toda nostalgia-depressão-ou-mera-tristeza será sempre filha do assombro da hora em que o dia cede ao breu. até que a noite cai, esparramam-se letreiros, promessas e postes se acendem. enfim, a luz novamente, ainda que outra. e torna tudo mais fácil, mais indolor. ou pior, esperançoso. e depois a aurora.

(ispirado nesse texto de Jaque Lima:
http://jaque-lima.blogspot.com/2008/10/tarde-noite.html)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

um conto chamado situações (parágrafo 4 de 4)


Um ano antes, a moça que fora dama de honra dessa festa pagã via pela primeira vez o Robertinho. E quase chorou de comoção com o sorriso mútuo à primeira vista. Robertinho, por sua vez, demorou a contá-la que era herdeiro de um vasto patrimônio financeiro construído pelo avô. Antes, preferiu encantá-la com seus dotes artísticos, exibindo seus quadros, até interessantes, mas que juntos nunca chegariam a valer perto de um milésimo do que aquilo que herdaria por sua fortuna genética. Algum tempo depois, eles perderam juntos suas virgindades. E o dia mais feliz da vida dela foi quando, aos 21, recebeu de Robertinho o pedido de casamento no café de uma livraria em Paris. Perceberam bem?, o dia mais feliz da vida dela. O que me deixa triste, dado que viveu até os 89 anos de idade, três filhos, cinco netos, alguns amigos, outros nem tanto, muitas festas, lágrimas e toda aquela coisa.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

um conto chamado situações (parágrafo 3 de 4)


Pois, no andar de baixo, um menino de 3 anos que ouvia a gritaria e o som das pancadas começava a chorar. Tal garoto, já devo antecipar-lhes, por sua vez, não teve uma vida das melhores, ou das sonhadas por seus pais. Aos 10 anos de idade foi iniciado sexualmente por sua instrutora na colônia de férias, esta aos 17 à época, durante a calada de uma noite fria, em um colchão muito pelo contrário. Mas não sintam pena por isso, dado que o rapazote agradeceu aos céus sua precocidade e as vantagens que passou a possuir, então, sobre os coleguinhas. Precocidade essa confirmada quando aos 15, aí sim, engravidou a namorada. Por isso, foi posto a trabalhar desde cedo. Depois teve uma overdose aos 18, e veio a falecer enfartando aos 41 enquanto curtia a festa de um ano de casamento com sua terceira esposa.

(clique aqui e leia o parágrafo 4)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

um conto chamado situações (parágrafo 2 de 4)


A alguns metros dali, em um apartamento muito bem decorado, a pesada mão de um homem alto e um tanto fora de forma estalava sobre o rosto de uma bela mulher, cuja idade real faria qualquer um crer que a carteira de identidade era por demasiado exagerada. Os xingamentos de puta, piranha, vadia, eram proferidos aos brados pelo homem fora de si. E que, a certa altura, já começava a ditar regras novas sob as quais aquele lar (sic) seria regido. Os ouvidos da mulher deitada, úmidos das lágrimas que o assolavam, sabiam que não havia veracidade em nada daquilo que lhes ressoava. Naquele instante ela tinha certeza de que a relação se encerrava em definitivo. E, apesar do rosto ardendo, não se arrependia um orgasmo sequer. O homem, ainda turvo em seus pensamentos baqueados, sentia que se ela soubesse de todas as suas aventuras poderia taxá-lo de injusto, mas precisava tomar a atitude que a vida lhe ensinara adequada a um homem naquela situação. É possível que esse pensamento tenha disparado nele uma crise de choro logo em seguida, mas não tenho certeza disso.

(clique aqui e leia o parágrafo 3)

(clique aqui e leia o parágrafo 4)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

um conto chamado situações (parágrafo 1 de 4)

Depois de algumas horas de bastante comoção entre muitos na igreja, a festa do casamento já corria solta quando todos voltaram-se para os noivos atrás do bolo. Alguns adolescentes sugeriram a seu jeito galhofeiro cantar um parabéns pra você. Os convidados mais alegres riram da brincadeira, outros irritaram-se mandando-os calar a boca, enquanto uma outra jovem, essa do tipo mais introspectiva, ponderava que para o casal aquela seria, mesmo, uma data querida onde todos torciam por muitas felicidades, muitos anos de vida. Essa moça também reparou que escorria uma lágrima no rosto da conjugue da noite pintando uma tarjinha preta em seu rosto ao carregar a tinta da sombra da maquiagem em seu olhar. Era justamente o momento em que a noiva se lembrava de que só ela sabia o quanto tinha batalhado para chegar até ali. Eis que havia alcançado a sua coroação, dali pra frente os louros, supunha comovida.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

detalhes & rubores

apenas o vermelho da unha anelar esquerda apresentava evidente desgaste do esmalte. mas não era pouco o estrago que isso fazia naquela mão tão alva e bela. ele tentava não reparar. não pensar que a unha à meia tinta comunica uma espécie de dor; denuncia o cansaço de algum trabalho manual; é uma sombra de desencanto que não consegue se esconder. ainda mais quando vermelha, como o sangue, as paixões políticas, como se diz do céu ao se por o sol (ainda que laranja). a boca! a boca, ele pensou. na boca quis fixar, então, seus esperançosos porém tímidos olhos. mas o rubro do batom estrangulava a intensionada sensualidade ao deixar escapar um borrãozinho (se é que algo pode ser aumentativo e diminutivo ao mesmo tempo) na lateral.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

à moda de ana c.

Outro dia, quando concordei que a literatura contemporânea apresenta uma estética da delicadeza, lembrei-me da gengiva, quando sangra.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

incêndio no lamaçal: há animais cuja extinção se deseja

Vê, vereador candidato, que eu de fato não quero votar em você. Antes vetar, se pudesse. O que eu quero ver é a dor de todo candidato a perder. Vereadora da placa da esquina, de onde e do que esse sorriso que te reluz a narina? Que esgoto respira? E o que nos aplaca essa sua foto de horrendas cores e palavras que te candidatam esgotando a cidade? Esse ar cândido não sabe enganar, nem tal mnemônico código numérico, não a mim. E me enoja esse praguejar contra demônios pela religião de eleitores. Quem sabe uma chama, isso sim, pudesse acender seu parlamento e o meu lamento incendiar.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

gastrite, caramelinhos e caraminholas

Desde que me cortaram o café, ando chupando caramelos. Não aqueles macios, prezo muito a amplidão de minha fala. Portanto prefiro as balas mais durinhas, estilo pastilha, que não grudam os dentes. Com isso tudo, o amargo tem esvaziado-se um tanto da minha palavra agora mais doce. Doce como pode um pranto evocar renovação. E açucarado como quem continua não suportando a falta de sabor. Desde que me cortaram a acidez também, ando com essas caraminholas na língua, tentando ainda afiá-la em cada sílaba.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

retina

Como pode dormir singela assim uma moça tão arredia? Me perguntei enquanto observava o detalhe de cada traço, imaginando no jogo de sombra e luz como eu faria para desenhar aquele rosto. Tão próximo à minha respiração quanto distantes deviam correr os sonhos que a pareciam apaziguar. Ah, como gostaria de ter habilidade para as belas artes! Algo ali, no pouso leve daquela boca ou no franzido fino da narina, explicaria as nuances e complexidades da minha menina. E, suponho, dariam quadro de estampada poesia.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

decomposição

A melodia assombrava-lhe justo por não ser sombria. Era triste, mas doce, fria e suave como a brisa da tarde que insiste. Era tudo tão tal e qual seu estado atual que ele não era capaz de notá-lo. E ele escrevia e riscava e escrevia e riscava versos que eram só isso, versos. Versos sem cura ou magia, líricas sem o fio da metafísica. Vã inspiração, réstia de desejo, febre fugidia e outros delírios assim ele gritava em pensamento consigo. Ousou a rima na prosa, cantou uma rosa a menina e batucou com a carne dos dedos e a fibra das unhas. Ao final, compôs uma canção deitada, mas sem sombra de música e à luz do vão, enfim...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

a palavra silêncio é em si um contrasenso

sábado, 1 de março de 2008

Peito do pé do Pedro (parte 4)


Além de ser apaixonado pelos pés daquelas que ele - não sei por que cargas d'água - teima em chamar de donzelas, noutra das coincidências da vida, Pedro se acha um pé-de-valsa. E sempre pede uma salsa seja qual for o baile em que baile. Eu, seu pé, só acompanho. Deixo que elas, pernas, me guiem. Claro, claro, Pedro só tira pra dançar as tais donzelas em sandálias. E fica inventando passos para poder pegar com mãos os pés delas. O problema é que nesses momentos da dança elas não entendem o que passa. Aí ele tenta explicar com o olhar, nada. Tenta explicar com um movimento de mãos e braços, elas só rodopiam no espaço. Inventa, então, levantá-las para na descida deixar um pé preso às pretensas mãos hábeis de Pedro. Semana passada derrubou duas assim, uma deixou a bunda doendo à beça, outra foi de cabeça. E termina toda noite apelando às bizarras agachadas ou curvadinhas que dá a buscar um pé e realizar a poesia dos movimentos que cria. Os observadores Pedro sempre deixa petrificados em apreensão. Uma vez, preciso reconhecer, foi aplaudido, por certo, de pé. Mas geralmente o pede pra parar o tal gerente que getilmente já o apelidou de Pedro, o buscapé.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Peito do pé do Pedro (parte 3)


Bom, o doce predileto do Pedro vocês podem adivinhar: pudim. Claro, o melhor doce! Pé-de-moleque, que nada. Moleque sou eu, o pé dele, que a acabo de pegar vocês. Não acharam engraçado? Menos vão achar a brincadeira que ele escolheu pra dar uma cantada na última bailarina que o deixou caidinho. Ela, pelo menos, não riu nadinha. Onde já se viu chamar alguém de super-égua por achar que a dona de um pé daquele tem mais sorte do que se houvesse uma ferradura ali pregada? Pedro, essa foi dura... muito. Mas não tanto quanto a canela que saiu dessa toda dolorida pela bicuda da sapatilha dela.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Peito do pé do Pedro (parte 2)


Certo dia, eu já cansado de tanto que ele corria, aconteceu um fato engraçado. Pedro, aquele louco louco por pé de mulher, e que havia calçado em mim mais uma vez aquele tênis velho e apertado, saiu em disparada pelo gramado gamado por uma dona, dona de uma sandália, que deixava nus seus peitos, peitos do pé. Enquanto eu lá ia, sentindo a cada passo as asperezas do solo pela sola desgastada, notei - ele não - que a tal feet-top-less era passada ao lado. Instantes depois, achando a ter perdido, Pedro parou, para meu alívio, e ali viu que deveria voltar. Eu preferiria algum descanso, mas não foi por isso ou maldade que, quando ele virou, esmigalhei com o peso dele o mindinho e o seu vizinho da versão esquerda daqueles pés de moça tão bonitinhos. Pezinhos, por sinal, que não combinavam nada com a boquinha, que abriu um vão bem grandão e soltou cada palavrão mais cabeludo que o outro, perdigotando o peludo rosto de Pedro, agora enxavido e cheio de puxa-vidas. Ainda bem que hoje em dia, já crescido, ele não mais é de bater o pé!

(para ler a parte 3 clique aqui)

sábado, 9 de fevereiro de 2008

O peito do pé do Pedro (parte 1)

A vida é mesmo cheia de coincidências e paradoxos. Veja o caso desse cara aqui de cima, por exemplo, se chama Pedro e é louco por pé. Não aborda nenhuma mulher se antes não tiver avistado o seu pisante. E qualquer “ela” se torna bela se tiver dedos de Cinderela. Ele, por sinal, sempre acreditou que a Cinderela tinha um pé belíssimo e que foi essa a verdadeira razão da escolha do príncipe, e não o tamanho. “Não há sapato que só caiba no pé de uma única mulher”, repete sempre ele.... E sobre o paradoxo? Ah, sou eu mesmo, como é que o ele pode me deixar assim, aqui, fedendo e justificando a rima chulé? Logo eu, o peito do pé do Pedro, preto, de tão encardido.

sábado, 26 de janeiro de 2008

a R.T.

(1987-2008)

A perda é como uma pedra engolida a seco. Não há líquido gástrico, nem que tanto bata, que fure a dureza da perda. Alguém que partiu, sabe-se lá pra que mundo, torna-se mineral. E parte-nos irrevogável e implacavelmente como o tempo. Ou como a natureza agigantada e geológica que se quebra no mar: morro junto d'água. Como o mágoa do Rio, onde fica a paisagem da beleza e a maior parte daqueles que a construirão em suas agora para sempre nostálgicas memórias.

sábado, 19 de janeiro de 2008

dúvida

"Como confiar os pés aos solos novos se o caminhar sempre nos ensina sobre sua fragilidade e finitude?", fico a me perguntar quando os caminhos mais seguros e estimulantes tem sua porta sempre trancada, enquanto o molho à nossa mão segue abarrotado de chaves... e tenho certeza que alguma delas...