sábado, 29 de dezembro de 2007

reveillon

Nada era mais claro do que a escuridão, que era desejada como pano de fundo para a luz, ainda que pequena e efêmera embora celebrativa, dos fogos de artifício. E não havia metafísica que não traduzisse aquilo tudo em metáfora para o ano.

sábado, 22 de dezembro de 2007

24, 25, 26...

Por essas épocas, em meio ao suor e às chuvas de verão, alguns, como eu, deverão se perguntar: o que é na prática o repetido desejo "feliz natal"? Durante esse período, costumamos ouvir outros votos que me parecem mais significativos, tal qual "boas festas" e "feliz ano ano novo". Sim, sim, quero que minhas festas sejam sempre bailes sublimes, fico grato pela preocupação. Que se dirá, então, de um ano vindouro inteirinho feliz? Definitivamente é algo a se desejar. Agora, "feliz natal" nunca me pareceu um voto ideal. Senão vejamos, estaria se desejando uma ceia saborosa, presentes acertados de amigos ocultos na noite véspera? Ou o que se espera é que o dia 25 seja agradável e alegre? Mas só o dia 25 de dezembro, há quem o diga à noite? Enfim, a julgar pela minha baixa religiosidade, parece-me pouco para tanto estardalhaço. Desejemos um futuro melhor, não só hoje, façamos-o sempre. E que não sejam só as festas ou o ano seguinte, e, sim, o mundo futuro que deixaremos aos próximos. É mais útil! E quanto aos presentes, que não nos detenhamos a datas forçadas. E, por favor, vamos evitar textos com finais piegas como esse próprio. Perdoem-me essa chatice natalina, é metalinguagem pra firmar o ponto...

sábado, 15 de dezembro de 2007

Instrumentos

Meu lápis - que não abusa - ora é enciclpéida, ora portal de fuga. Às vezes ele se faz bengala, noutras é analista com direito a divã e sala. E há mais uma longa lista de benfeitorias que lhe dedico sem saber. Mesmo agora, com essa dor de mal escrever, sem rubor ou pudor, sem poder. Aí entra o caderno, redoma, que me protege. O impulso primário vem e dá a base de tudo. Para que o tempo, aos poucos, me eleve. E o passado, aos trancos, pondere. Sem que eu deixe, assim, passar mais nada que valha. Nem o acerto do sim, nem o negativo da falha.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Ah, o porvir...

O passar do tempo é natural e sabidamente das coisas mais intrigantes dessa nossa insignificante e preciosa vida. Em sua dialética entre pessimistas e otimistas pontos de vista de tudo se conclui. E o correr, em especial dos anos e décadas, é por vezes mal falado em exagero. Já se dissertou a morte, já chorou-se a perda e temeu-se o fim. A glória já foi conquistada, encontros cantados e previsto o estranho destino de tudo: o escombro de algo que já foi. Portanto, e como me enfadonha o repetitivo, proponho um outro inequívoco, o das possibilidades viáveis (não que seja eu o inventor disso, é apenas mais um algo sobre o que redijo). Me explico. A beleza de hoje se encontra em alguma parte entre o encantamento e a alegria que nos proporciona a arte do instante. Isso somando-se a nossa habilidade para percebê-la. E subtraindo-se o produto de outras desagradáveis condições à volta, por dentro e do sentimento. Além, é claro, do empurrão das escolhas, percebidas ou não. Tudo isso resulta na vida: a ávida vida presente. E tal momento é sempre tão somente o resultado a que se chegou dadas as possibilidades (olhe elas aí) vigentes. E assim sucessivamente. O que quero dizer com isso é que o amanhã se fará com as possibilidades do amanhã. Apenas com elas e, por favor, atente para o fato da impossibilidade delas hoje. Pense comigo. Há coisas (acontecimentos, experiências, vivências, descobertas, deleites...) que só chegarão ao status do possível no presente em algum amanhã. Essa é uma beleza da passagem do tempo. Esse é um presente que só nos será passado pelo futuro. Um pacote infinito de novas possibilidades a todo instante. É uma cartola de mágico a cada hora. Um livro por dia de novas histórias. Ah, o porvir... Há resultados aos quais só conseguiremos chegar com a alquimia dos elementos do amanhã. E que novos ingredientes serão? Encomendas, surpresas, enfim. Tomemos, por exemplo, a mim, há alguns minutos me caiu a possibilidade de um texto que nunca antes me havia ocorrido. E agora, só agora, a possibilidade de um satisfeito ponto final. Que nunca é tão final assim, afinal sempre lhe segue um depois com reticências...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Eu sei ler cartas. Cartas de amor não passam de cartas de tarô. Pequenos sinais e cifras, clichês do tempo do meu avô. Simbolismo demais me enjoa. Diga o que tiver que ser dito, doa em quem quer que doa. Eu entendo as entrelinhas, os futuros, as insinuações, os instantes. Eu sei ler cartas e eu entendo o que você prediz, mas eu não acredito em tarô nem em cavaleiros de armaduras brilhantes. O que eu não entendo é o amor, o que eu não entendo é o amante.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Pequeno Sertão: Anedotas

Cumpadre, que mulher baita! Precisava ver a rapariga, a sirigaita. Bonita de dar dor de barriga. Inté bom pra dar uma aliviada, eu tava com uma prisão de ventre danada. Ah, proveita e risca um fósforo aqui no banherin da birosca, saiu tudin, eita, muita... Sujeira... Bão, vou voltar pra mesa... Ué, mas cadê o Zé que tava lá comigo? "Correu pro banheiro mas ocê já tava usando...". Vixe, e aí?! "Se cagou todin! Não é que voltou a bela dona!" Peladona? "Vixe, imagine se fosse..." É, cumpadre, se ela continuar no bairro ocê bem que vai ter que improvisar outros banheirins no bar. Ah, se vai...

sábado, 17 de novembro de 2007

Benedito

Benedito leva a vida sem vacilo mas suspeita que está tudo pelo avesso. Sente que o endereço do perigo está no meio da rotina na esquina com o anseio. Um belo dia no almoço esgotou a paciência e de uma jeito meio grosso revelou a nova crença que "assim não vai dar, tudo fora do lugar". E ele sempre soube o que era isso: tantas regras, tantas verdades, algo disso deve ser mentira. "Me tira desse caminho" era o que dizia esse menino. Ser louco como o mundo? Preferia ser são sozinho. Pois viver com tão poucas escolhas... não queria essa coisa, de poder resumir num cartão de visitas. Mas o Benedito não é anarquista, só veio mostrar para o mundo um novo ponto de vista. Sem querer adivinhar, nem fazer leis ou professar o que é bom pras outras pessoas. Ele sabe de si. E aos outros só quer vivendo numa boa.

sábado, 10 de novembro de 2007

Entreouvido no bar

Quanto mais gelada minha boca melhor, é a razão do meu interior molhado. Os homens me olham e se expremem em feições de deleite, deve ser por que sou loura. Algumas mulheres também. E os enlouqueço, me solicitam, me agarram, me fazem seu bel prazer. Tudo efêmero, logo me sinto usada, são tantas de mim que sou rapidamente trocada. Às vezes a troco de tão pouco ou quase nada. Objeto: talvez por isso seja eu assim tão fria. Oh Deus por que veio me fazer tulipa?

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Bisconto

Biscoitilde mora na terra dos doces. Todos os dias a mãe dela faz o seu prato, refeições balanceadas contendo os três principais grupos alimentares: chocolates, balas e biscoitos. A terra dos doces é complicada porque tudo é feito de doce. Até a escova de dentes. Pra não falar que a pasta de dentes não só tem sabor de caramelo como é feita de caramelo. Por isso, Biscoitilde (como as outras crianças) é desdentada. E apesar disso ser perfeitamente natural na terra dos doces, às vezes causa certo estranhamento quando Biscoitilde visita sua tia em outra cidade. Mas não tem problema, ela descobriu. É só vestir sua camiseta do Corinthians que ninguém repara.

sábado, 3 de novembro de 2007

fumaça

A fumaça faz par de dança com o vento. Se está densa, chora chuva. Já se é queimada, foge escura. Agora veja, quando outrora sai de trem - seja vai, seja vem - sinaliza o movimento. E passa.

sábado, 27 de outubro de 2007

VER-ME

Sou um ser movido por impulsos e razões nem sempre convergentes. Sou um ser dotado do dom-motor da insatisfação rotineira. Sou um pulso oscilante que bate cabeça e pé. Nisso acabo me fixando. E indo. E ficando. E indo e ficando... findo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

keppler

Eu estou tão cansada, meu corpo esteve circulando esse mundo desde tempos imemoriais e agora se deu conta e quer ruir. As coisas estiveram girando nos eixos errados por tempo demais, a correção se faz necessária e eu vou desviar essa linha de trem.
Eu sempre soube que o mundo devia girar ao seu redor.
Então ponha o umbigo pra fora
e levante os braços, meu bem.

sábado, 20 de outubro de 2007

valsa em 2

Me cobra a cada dia uma nova obra. As reproduções baratas já não mais cabem. A parede do incômodo é branca e pede cor. Um bom esboço ainda é pouco, e ela não cede. Tudo que meu olhar pode, mede. Tudo que a mão alcança entra na dança e tudo mais que é arte possível me parte. O pé cansa. E o aplauso ainda é falso. Tudo bem, nada que não se resolva no próximo ato. E me debato...

sábado, 13 de outubro de 2007

tome

Me tome como eu tomo a sede e eu cedo à cama e eu como seu e como minha dama a partir do plexo e a fome a perder o nexo e pedir o sexo e come a matar desejo e beijar a meta e dome a tirar pela fresta e voltar pelos pêlos desse homem em festa.

sábado, 6 de outubro de 2007

RODA

A roda já tinha sido inventada desde as primeiras pedras que rolaram. Há coisas que ascendem ao tempo, não carecem de uma ou outra vã idéia. E eu querendo daqui construir algum entendimento, sem entender o paradoxo de que toda previsão é sempre posterior a um fato. E, mesmo quando achar que não, saberá sempre desmentir o vento.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

esquecimento

Nada no tampo liso de madeira. Nada além do duplo, do reflexo. Apoiou o copo com água gelada. A água espalmou em torno do copo, o carimbo líquido e redondo. Toque de campainha e a água se queda de oferenda. Você aqui? Vim te ver. Sei. Você deixou isso lá em casa. Deixei, não quero, é seu. A Yolanda não gosta, sabe que era seu. Pode deixar ali no hall. Mas é que dá pena. Já disse que não quero, dê para um mendigo, sei lá. Um mendigo?O que um mendigo vai fazer com um tapete? Se enrolar, dormir em cima, vender, importa? é dele e ele faz o que bem entender. Que indiferente, você. Não é, só não quero me sentir mal de olhar para o chão. Se ficar olhando pra baixo é porque já não ta se sentindo muito bem. Não seja engraçadinho. Hm. Ta bom. Você recomenda algum mendigo em particular? Não sei, na pracinha tem um monte. Algum em particular? Tem um de barbinha e gorro verde, com um cachorro, muito simpático, ele fica geralmente perto da fonte. Fonte? A fonte, sim, aquela com uma estátua de cavalo... Nunca vi. Ai meu deus. Me leva lá. Oquei.
Pegou a bolsa e calçou os chinelos de borracha, bateu a porta, trancou. Depois, foram tomar um sorvete.

sábado, 29 de setembro de 2007

LUZ NEGRA

Mar e céu azuis, contendo o horizonte. Assim como todo o feeling que vem do mais belo blues. Mas seus olhos, de profundo negro, é que contém o infinito, e aquela nossa alegre luz.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

suor

A roseira me olhou com ceticismo. Desviei meus dedos com cuidado de cada espinho. Depenei algumas das folhas serrilhadas do caule. Limpei o suor da testa e esfreguei a mão no avental. O dia estava quente, já começava a acumular suor nas dobras do vestido de festa. Meu salto oscilou por entre as pedrinhas do chão, e me segurei na borda do vaso, sujando a polpa dos dedos com terra. Tomei do alicate e extirpei o botão mais fechado. Ele me olha, franzido e azedo, abotoando a sua lapela.

sábado, 22 de setembro de 2007

poema nenhum

O poema não erradicou, às vezes mais me fazem os alheios. Mas a estante d'alma não rima já lidos sentimentos. E a falta da hora presente, pressente que é mesmo falta: algo que só se preenche, ainda que brisa, se diferente.

sábado, 15 de setembro de 2007

óbvio

Eu só não sou mais óbvio que um comentarista de futebol, que um guitarrista de rock'n roll, que todas as pistas que já deixei... e você não notou.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

souvenir

Você chegou de viagem com sua mala vazia e abriu na minha frente como se fosse responsabilidade minha enche-la de sonhos ou versos ou seja lá o que fosse que você esperava de mim. Por isso eu a enchi com meus suéteres, saias de caxemira, blusas azuis e um perfume enrolado em um lenço, estralei a trava e rasguei a perfeição do nosso chão encerado com as rodinhas da mala e deixei em cima da cama, eviscerado, todo o vazio que trouxeste.

sábado, 8 de setembro de 2007

ainda

... soube pela voz interna que a ternura daquele salto ainda se encontraria, como todos os outros, alcançando, ainda que com a mão, o chão. O tempo fora mesmo de inverter sentidos...

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

yup.

Dia magnífico, não é mesmo? Céu alto e claro, esperando pra ser musicado. Tudo crocante. Esperança de algo? Não, nem tanto. Brisa leve leve, como deve ser. Uma vontade de ser feliz só porquê. Ah, devia ser proibido ser tão bonito assim tão cedo. Assim tão vaso cristalino, só esperando pra ser quebrado.

sábado, 1 de setembro de 2007

circunferência

Foi tudo apenas uma inversão. De céu e terra. E a poeira que eu respirava era pureza e o peso da cabeça era uma simples outra maneira de olhar. Tão simples ver o mundo assim... Mas terminei por me achar um idiota ao brusco fim da cambalhota.

sábado, 25 de agosto de 2007

Biografia Breve de um Morador da Estação

Nasceu lindo como a primavera e foi um quente jovem de verão. Na maturidade já era inverno e caiu morto como as folhas no outono.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

febril

passar um dedo pela gola da camisa, sem tocar o pescoço. Revelar um pedaço de carne branca e marcá-la com os lábios, deixar meu sinal queimando, como quem marca seu gado.

sábado, 18 de agosto de 2007

manhã

Abriu os olhos, acordou. Estava de lado no lado da cama de casal olhando pra fora. Viu o banheiro... Ué, mas peraí, o quarto dele não é suíte, opa! Leva um susto olha ao redor, estava sozinho no quarto, olha de baixo do cobertor, opa! Outro susto, está nu! A memória vem se aproximando, flashes da noite passada: a festa, as cervejas, a conversa com o caso secreto antigo... Ih, quer dizer, o caso que agora era secreto. Reconheceu o quarto mas não o próprio cheiro. E por que ele está sozinho ali? Levanta, dor de cabeça, abre a porta, opa! Você está pelado rapaz! Ih é, volta, veste a cueca e a calça... hmmm... o quarto esta arrumado, as roupas estão arrumadas. Mas por que ele está sozinho ali? Segue, ninguém no quarto ao lado, a dor de cabeça, chega a sala, ah, aí está ela. Deitada coberta na sala. Vendo televisão. A mão em movimento. Por debaixo das calças. Pela porta da frente.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

carmen

Comendo carne se sentia melhor. Cravar os dentes e puxar, imaginar músculo se descolando do osso, as fibras, as cartilagem, a vida que passou por ali. Saber que o bicho viveu, respirou, olhou pra cima e foi feliz. De que outra forma se explicaria tal suculência. O amor pela vida deixa um cadáver suculento. E para não dizer que desta vida não se leva nada, acompanha fritas e arroz. Comendo carne afirmava: aqui houve vida. Esses vegetarianos são todos uns necrófilos.

sábado, 11 de agosto de 2007

Fico

Algumas decisões na vida a gente toma assim, como se estivesse escolhendo que poltrona sentar no ônibus quando não há nenhuma janela vaga. Foi desse jeito que Fico decidiu tomar café preto na padaria àquela manhã. Para ele, tomar cafezinho naquele copinho de vidro era também uma espécie de boemia. E ali, numa quase esquina de Copacabana tinha glamour equivalente ao das cigarrilhas daqueles filmes antigos. E chatos. Os humildes-velhinhos-íntimos-das-atendentes que perpassavam aos montes também lhe davam um sentido especial ao lugar. Estranho, mesmo. Talvez Fico visse incríveis experiências vividas se espremendo por entre as rugas e sorrisos dos simpáticos - alguns reclamões - grisalhos...

Tudo bem, algo nesse nome "Fico" lhes deve estar causando estranhamento. Explico, vem de Francisco, mas por alguma razão até hoje desconhecida sua avó sempre lhe chamou assim. Como é diferente e soa engraçado, pegou o apelido.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

e tudo bem

Esqueceu o brio e lutando contra o frio lhe disse Ficaremos bem. Ajeitou o casaco, pôs o gato num saco e lhe disse Ficaremos bem. Subiu e desceu o monte, parou sobre a ponte e lhe disse Ficaremos bem. Se inclinou no parapeito, deixou a mão afrouxar o aperto e lhe disse Ficaremos bem. Viu o saco afundar na superfície, sorriu como se não visse
e disse.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

rayito

Se arrastava pelo sótão com correntes. As correntes, não sabia porquê. Talvez por comodismo, por ser o que lhe diziam a respeito de fantasmas. Por já não saber quem era; Apenas que morrera. Um dia levantou uma telha, estava tão bonito lá fora. Tão bonito. Atravessou a porta do sótão, desceu as escadas, as correntes arrastando atrás. Atravesssou a porta da rua e apertou os olhos pra luz não doer. Bobagem. Não tinha olhos. Manias que a gente pega com a vida e depois é difícil de se livrar. Um passeio pela calçada, uma ida ao parque, alguns impulsos (seria o vento?) no balanço. Voltava pro sótão sem perceber que esqueceu no caminho as correntes. E, mesmo pra um fantasma, flutuava mais leve.

sábado, 28 de julho de 2007

soprado por um pássaro:

A realidade nunca poderá chegar aos pés de uma ilusão. Como o chão, que inveja as nuvens mas não tem sua coragem.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

broadway

Cantando uma canção que não existe. Daí passa a existir, o que não faz dela menos triste. Vão surgindo por entre as ruas os violinistas, saxofonistas, violeiros e trompetistas pegando no ar meus do ré mis, soprando e tangendo e tocando o bis. Vamos indo, seguindo nessa procissão lúgubre, eu e a orquestra de fraque. Eu silencio o refrão, não vai bem com o meu sotaque. A orquestra ainda caminha comigo. Espera ainda um segundo ato. Flautistas e flautistas de hamelim, perseguindo o rato.

sábado, 21 de julho de 2007

à segunda vista

Olha-me até que tua beleza desfaça. Quero teu rosto ao ponto de virar fumaça. Embaça, meu bem, e passa: ou vem.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

veleiro

Os olhos, os olhos insuportáveis como se tivesse levado um tabefe, oh, os olhos, os olhos, já não posso. O chão está frio sob meus pés. Acabou. Ela vai. Eu vou. Tanto faz a ordem dos fatores, não é mesmo? Eu desvio o olhar mas o vulto dela continua sólido no canto do quarto. Eu tenho um maldito GPS e é impossível não senti-la ali, a ausência de luz entre a janela e eu, entre a parede e eu, entre eu e eu, entre nós. Um veleiro negro, ela vai se levantar, ela vai. Eu vou. A suspensão do instante antes do fim, o viking já morto, seu chapéu, suas armas aguardam as flechas incendiárias, ele aguarda no purgatório a céu aberto. Ela vai embora, não vou olhar, adeus, não posso olhar, já conheço sua imagem, não quero te ver. Ela é a falta de luz entre eu e a porta que está fechando, entre eu e o mundo entre eu, sai ela, não entre, por favor. Ela é a falta de luz que eu agora só posso adivinhar, os saltos martelando o piso, martelando a pregos sua figura na minha proa, o veleiro que segue sua imagem imutável na madeira, a carrega no externo do casco, atrás de nada, sem rumo, a imagem colada com olhos mortos de madeira e aguarda a chegada da sua flecha de fogo, um veleiro negro perdido nas ondas que, por causa desta chuva fina, não tem a menor esperança de queimar.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

hai

A gueixa passa, passos miúdos, cara empoada em seu casulo de seda. Preguiçosa lagarta, larga-se sobre um almofadão. Esfrega fora a pasta de arroz, descalça as chinelas altas antes de comer um amendoim e soltar um pum. Coisas que não se pode fazer de máscara.

sábado, 7 de julho de 2007

lembro

Essa sua cara de frisson em mim, que assim fazia passear por aqui: ah, se vi... tanto mais do que havia. Mas a via e isso por si só e por mim bastava. No fim era eu, que gastava meu senso em ilusões e alusões ao tempo.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

joaquim

Todo dia par, todo dia ímpar,ia pela rua levando uma nuvem pelo braço. Como poderia explicar às pessoas que a tristeza que carregava não era a dele? parou perto do número pintado no muro e sem saber bem qual a razão disse ao menino que passava por ali: meu filho, eu jamais cuspi algo que não tivesse asas.

sábado, 30 de junho de 2007

Tempo

tempo tempo tempo passou tempo tempo tempo novas dores tempo tempo tempo são tempo soluço tempo solução tempo tempo tempo tempo tempo de rancores tempo tempo tempo tempo que parou um dia tempo tempo tempo tempo que os multiplicou tempo tempo de outra alegria tempo tempo tempo tempo tempo e uma agonia se chegou tempo tempo todo dia tempo tempo tempo tempo e a idéia tempo tempo tempo se esgotou.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

niquel

Toda uma fábrica de coisas. Maquinas que abrem, fecham param, voltam a abrir. Fechar. Parar. De novo. De novo. De novo. Até o parafuso espanar, até máquina por máquina parar de abrir. E fechar. Entre as porcas e plainas de metal semi-abertas voa, voa o silêncio numa imitação eloqüente de vento. E as coisas já não se fazem.

sábado, 23 de junho de 2007

É...

- Hei eu-daquele-dia, tá me ouvindo?! Vê se não vê tanta poesia nesse novo par que se anuncia. Te falo com sabedoria do alto do meu hoje-algum-tempo-depois. Pois que essa mulher é mais uma das humanas, das mortais. Não, rapaz, não faz isso! Não a usa como musa. Ai, ai, ai... Ouviu o que ela disse? Presta atenção no hábito que se apresenta, então... não?!

- Shshsh... não enche! Quem é você pra me dizer qualquer coisa?! Oh Grande Poeta do Bar da Esquina da Desilusão. Me deixa ser feliz aqui no meu presente bom. Quem sabe eu não tampo o furo do seu futuro...

- ...

- Tenho que ir, uma voz me chama...

quinta-feira, 21 de junho de 2007

plonk.

Se chamava Pedro Rocha. Tinha vida dura. Era caminhoneiro, estava sempre pelos caminhos. Gostava de estrada de terra, estrada de barro. Não suportava o ruído de cascalho. Então ligava o rádio. Se apaixonou pela música. Decidiu virar cantor. Seu nome artístico? Raul Seixo.

sábado, 16 de junho de 2007

para uma tartaruga amarela

Um texto belo é mais que um castelo, é mais luz que o amarelo e distrai qual novelo. Ah, lê-lo é natural como o verde, é o comovente primal da pureza do ventre. Sua natureza tem a eternidade do vento e o imperfeito preciso. Uma prosa com jeito parece entrar pelo ouvido e arrepiar cada pêlo. Um belo texto é o impreciso perfeito, é um vôo sem medo, é de outro contexto. tartaruga amarela

quinta-feira, 14 de junho de 2007

título

Era bobagem, mas era tristeza também. E eles mangavam dela por chorar e se preocupar tanto com uma coisinha tão tola.
Estúpidos, estúpidos.
Já não era uma coisa à toa no segundo em que a fez chorar.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

de raios, troncos e trovões

um sopro de vento, bastante gentil.
olha as árvores, de braços espalhados comos leques, parecem só casca.
só.
parece a pele de algum espirito que solidificou.
parecem tão plácidas, mas você já pensou em como um trovão seria se tivesse corpo?

mas, de quando em quando, há tempestades, e os espiritos dos antepassados descem á terra para lhes segurar as mãos.
Só uma vez, e depois nunca mais.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

junina

as biribinhas se chocavam contra o chão e estalavam para a alegria das crianças, deixando pouco mais que o rabo de papel retorcido. Sina agridoce, se destruir
só pra deixar alguém feliz.