quarta-feira, 18 de julho de 2007

veleiro

Os olhos, os olhos insuportáveis como se tivesse levado um tabefe, oh, os olhos, os olhos, já não posso. O chão está frio sob meus pés. Acabou. Ela vai. Eu vou. Tanto faz a ordem dos fatores, não é mesmo? Eu desvio o olhar mas o vulto dela continua sólido no canto do quarto. Eu tenho um maldito GPS e é impossível não senti-la ali, a ausência de luz entre a janela e eu, entre a parede e eu, entre eu e eu, entre nós. Um veleiro negro, ela vai se levantar, ela vai. Eu vou. A suspensão do instante antes do fim, o viking já morto, seu chapéu, suas armas aguardam as flechas incendiárias, ele aguarda no purgatório a céu aberto. Ela vai embora, não vou olhar, adeus, não posso olhar, já conheço sua imagem, não quero te ver. Ela é a falta de luz entre eu e a porta que está fechando, entre eu e o mundo entre eu, sai ela, não entre, por favor. Ela é a falta de luz que eu agora só posso adivinhar, os saltos martelando o piso, martelando a pregos sua figura na minha proa, o veleiro que segue sua imagem imutável na madeira, a carrega no externo do casco, atrás de nada, sem rumo, a imagem colada com olhos mortos de madeira e aguarda a chegada da sua flecha de fogo, um veleiro negro perdido nas ondas que, por causa desta chuva fina, não tem a menor esperança de queimar.

3 comentários:

R disse...

Caralhouuuu!!!!!
Sensacional isso!!! Demais!!!

Sou teu fã!! Te juro!! No duro!!


Bjs bjs,
REMO.

Leandro Jardim disse...

bonito =)

renata zê disse...

eu gosto. :)