Enquanto encostava o meu queixo e a minha testa contra os ferros, a coluna bem torta para alcançar a altura correta. A luz se acendeu no fundo, para um olho só. Embaça, duplica e depois fica perfeita. Uma estrada sinuosa, um balão colorido, um céu azul. Foca no balãozinho. Obedeço. E agradeço. Em uma máquina dessas, imagina cada coisa que eles podiam nos obrigar a olhar. Dentes amarelos, splashes publicitários, um espelho,baratas com as perninhas para cima, mas em vez disso um balãozinho singelo. Não contenho o sorriso.
Agora já pode piscar.
Depois, uma porção de lágrimas quentes de belladonna, os contornos fogem como se deus (o grande colorista) tivesse esquecido que a gente deve pintar sempre para dentro das linhas. Isso eles fazem por gentileza. Para nada destruir o eco daquela última imagem de dentro da retina.
domingo, 31 de agosto de 2008
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
retina
Como pode dormir singela assim uma moça tão arredia? Me perguntei enquanto observava o detalhe de cada traço, imaginando no jogo de sombra e luz como eu faria para desenhar aquele rosto. Tão próximo à minha respiração quanto distantes deviam correr os sonhos que a pareciam apaziguar. Ah, como gostaria de ter habilidade para as belas artes! Algo ali, no pouso leve daquela boca ou no franzido fino da narina, explicaria as nuances e complexidades da minha menina. E, suponho, dariam quadro de estampada poesia.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
No dia - drops de arame farpado
No dia em que faz um ano que o amor da sua vida morreu, você pode ficar o dia todo de pijama de palhacinho, chorando e fungando, comendo sanduíches e falando com voz de bebê com os gatos. Você não precisa dizer nada, fazer nada, lincar nada, telefonar para ninguém, produzir nada. Faz um ano que ele morreu e não tem coisa alguma que importa ou faça sentido ou signifique.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
boa educação.
eu vou te levar pela mão na íngreme ladeira das minhas idéias e te mostrar cada cômodo da propriedade das minhas lembranças. eu vou deixar que você prove da doçura da minha cozinha e que você se encante com o canto dos pássaros que cantam na minha janela. eu vou te dar a chave da porta da frente e um edredon quentinho pra te embalar nas noites frias. eu vou te explicar como organizei os livros e deixar que às vezes você escolha uma música pra colorir o dia. eu vou dizer pra que você se sinta à vontade para tirar os sapatos e ser você-todo. eu vou deixar você dormir enquanto eu saio.
mas que você se atente ao aviso escrito em letras pequeninas no rodapé da sala de estar: essa casa é minha e aqui não existe o direito de você trocar as coisas de lugar.
mas que você se atente ao aviso escrito em letras pequeninas no rodapé da sala de estar: essa casa é minha e aqui não existe o direito de você trocar as coisas de lugar.
domingo, 24 de agosto de 2008
sunken
Eu sinto falta dele. O pensamento veio do nada, despontou duma corrente contrária que falava de plantas e canteiros entre as ruas da cidade. Ficou ecoando feito um tabefe, um peixe morto que caiu do céu. Era preciso encontrar outra coisa em que se pensar. Rápido. Quantas pessoas já tiveram um silêncio desconcertante consigo mesmas? Como sem querer tocar num tabu e a sala se virar pra você de repente. Como se eu tivesse chorado no seu casamento. Como se eu tivesse gargalhado no seu funeral.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
decomposição
A melodia assombrava-lhe justo por não ser sombria. Era triste, mas doce, fria e suave como a brisa da tarde que insiste. Era tudo tão tal e qual seu estado atual que ele não era capaz de notá-lo. E ele escrevia e riscava e escrevia e riscava versos que eram só isso, versos. Versos sem cura ou magia, líricas sem o fio da metafísica. Vã inspiração, réstia de desejo, febre fugidia e outros delírios assim ele gritava em pensamento consigo. Ousou a rima na prosa, cantou uma rosa a menina e batucou com a carne dos dedos e a fibra das unhas. Ao final, compôs uma canção deitada, mas sem sombra de música e à luz do vão, enfim...
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Drops de caramelo - Fatos da vida 1.
Quando você chega em casa triste, sozinha, nelvosa e taca as suas coisas de qualquer jeito no sofá e nem olha direito pra cara do gato e corre pra cozinha em busca de conforto e abre o armário e se dá conta de que a única coisa vagamente comestível por ali é uma lata de milho, olha, aquela história toda de apocalipse e fim do mundo e tal e coisa faz o maior sentido do mundo.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
427, apto 23.
não sabia os truques da casa nova. não tinha aprendido os passos certos pra se mover no escuro e não tinha educado o corpo pra se esconder dos medos num movimento rápido. o cheiro forte de tinta, os estalos dos móveis, a alergia e o susto a impediam de ter um sono tranquilo.
abriu os olhos e esperou com angústia os instantes para sua retina se adaptar à luz-pouca. viu os 143 livros empilhados no chão. as roupas amontoadas em 7 caixas a alguns metros da cama. viu o corpo dele dançando no balanço da cortina. ouviu o choro do filho que eles não tiveram. viu a mão. se confundiu com o brilho da capa dos 27 cds que couberam a ela no amputar de sua vida antiga. viu o punho. fechou os olhos. sentiu a dor.
tinha levado consigo mais coisas do que se poderia contar com números. tinha levado mais peso do que era possível carregar.
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um prazer postar aqui.
mesuras aos companheiros de blog e saudações aos leitores.
nos vemos às segundas.
abriu os olhos e esperou com angústia os instantes para sua retina se adaptar à luz-pouca. viu os 143 livros empilhados no chão. as roupas amontoadas em 7 caixas a alguns metros da cama. viu o corpo dele dançando no balanço da cortina. ouviu o choro do filho que eles não tiveram. viu a mão. se confundiu com o brilho da capa dos 27 cds que couberam a ela no amputar de sua vida antiga. viu o punho. fechou os olhos. sentiu a dor.
tinha levado consigo mais coisas do que se poderia contar com números. tinha levado mais peso do que era possível carregar.
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um prazer postar aqui.
mesuras aos companheiros de blog e saudações aos leitores.
nos vemos às segundas.
domingo, 17 de agosto de 2008
um-dois, um-dois
O exercício da doçura. Um toque, um olhar. Um clichê, se preciso, mas algo bonito a dizer. Uma abertura. O silêncio bem-intencionado, mãos dadas, compreensão. Uma pausa, se segurar na hora certa, se permitir algo que queira fazer mas nunca faz. Ser humano, pedir o abraço a que você tem direito. Reverter o fluxo das lágrimas de volta para dentro com o som que faz ao dormir, um sopro quente e um afago. Dizer Você vale alguma coisa pra mim, Você tem o lustro de um quindim, Você é o meu bicho favorito. Dizer Fica bem. E tomar um sorvete. O exercício da doçura. A panacéia universal.
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o caramelinhos está de volta!
agora com novos ingredientes ;)
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o caramelinhos está de volta!
agora com novos ingredientes ;)
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