sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

engasgado

É assim que acaba, é assim. Sem música tema e sem créditos finais. É assim que acaba, o pingüim de geladeira quebrado em preto e branco no chão, que a Maria vai por num pano de prato e botar lá fora. O copo de leite deixado em cima da mesa e podemos dizer que isto foi há tempos. Por causa do soro flutuando, por causa da massa branca, irmã mais nova do iogurte. É assim que acaba. Sem a palavra adeus, sem um bilhete, sem miolos esparramados no chão. Acaba por inanição. Definha de fininho e quando você vê não está mais lá. É assim que acaba. Sem última valsa, sem assinatura no cartório. Sem divisão igualitária de bens. Caixas e caixas de papéis e objetos para empoeirar. Comida de cupim. Acaba como o cisco que o vento levou. Não morre, adoece. Não se espatifa, fica suspenso. No ar. Pra sempre. E se cair, ah, bom. Não vai ter ninguém pra ver.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

paquetes

O melhor presente não tem embrulho, não vem com pilhas e não pode ser engolido por crianças de zero a 3 anos.

O melhor presente não dá pra comprar na loja de brinquedos nem na de eletroeletrônicos. O melhor presente não pode ser escondido na meia no dia do natal, não cabe numa caixa, não cabe numa casa inteira.

O melhor presente não é de pano, não é bordado, não tem rótulos nem etiquetas. O melhor presente não pode ser vendido separadamente. O melhor presente não tem cor e nem é lavável. Não dura pra sempre mas não desmancha com o tempo. O melhor presente tem gosto de bolo e cheiro de terra. O melhor presente não tem altura suficiente para andar na montanha russa.

O melhor presente é algo que quase todo mundo já teve mas que é fácil, tão fácil de perder. O melhor presente é só seu até o dia que você esquece onde pôs.E que um dia encontra, sem querer, esbarrando com os dedos como quem acha dinheiro velho perdido nos bolsos de um casaco. O melhor presente é algo que você já teve. E que você também pode dar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Não é nada não. Nada além de um pensamento para acariciar nas horas mais escuras. Minha arma secreta. A pílula de veneno metafórico escondida no molar. Nada além disso, de uma saída de emergência para o dia em que a barra lembrar que é de chumbo e pesar. Por mais improvável que seja, mesmo que não seja nada não. Sou só eu, no apertar das horas, me dizendo que existe alternativa. O conforto de enrolar os dedos nos cachos de uma criança
que não vai nascer.

domingo, 26 de abril de 2009

Se eu falo de amor é por pobreza de espírito, é mendicância intelectual. É falta de crivo, é pouca leitura de jornal. Se eu falo de amor é por estar indisposta, por ser absolutamente banal; é por não pensar noutra coisa, é por loucura informal. Meu coração é feijão com arroz, repetitivo que só. Bate por insistência, desconfio que seja por dó. Meu coração funciona aos trancos, deve ser perrengue no miocárdio. Se eu falo de amor é por luxo, é para exercitar o músculo e é um exercício árduo. Se eu falo de amor é que eu torço: assim quem sabe eu não ouço aquilo que eu não falo.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Dia 13

(excertos do diário de Rebeca)

Período de entressafra.

Nem Francisco, nem Aprígio.

(Aqui, aliás, vale um adendo: onde raios eu acho homens com esses nomes?)

Enfim, voltando ao catártico desabafo e confissão: um intervalo sabático da testosterona – glória e tapa estalado.

Os solitários não sabem nada de solidão. Nada. Mesmo.

É fato.

Para gente assim, solidão é uma noite de sexta-feira “só” em casa.

Outros veem o domingo e seu habitual marasmo e comum sabor de leite por azedar como o dia para os sozinhos de todo mundo pularem de uma ponte imaginária e se deixarem afogar na fossa.

Há quem pense – acometido por uma profunda Síndrome de Garfield – a segunda-feira, sobretudo entre o jantar e o travesseiro, como um instante eterno de angústia. A todos estes solitários falta angu.

Letra D. Nenhuma das respostas anteriores estão corretas.

Não há nada mais solitário do que uma madrugada fria de sábado, limpando a casa, lavando a louça, ouvindo o silêncio gritar e zombar da sua cara. Quando faz sol no inferno, o cramunhão danado te abraça longa e gargalhadamente. Para curtir o poço com categoria, trilha sonora do filme Um lugar chamado Notting Hill no som, repeat em Marvin Gaye na faixa seis apunhalando com “How can you mend a broken heart”. Pensar a merda da sua vida com Gaye em falsete é doído qual topada de mindinho.

E eu nem tinha para quem ligar. Careta, a esta altura, desfrutava da antípoda caliente da solidão e do vazio com um dito “amigo de foda” que há muito merece ser mais que amigo.

Marvin, negro lindo, desce num rio encarvoado pelo meu rosto, desmilinguindo a maquiagem feita só pra me sentir melhor, mais bonita. Maldita seja esta canção a martirizar Rebeca Mayer e o livreiro William Thacker e sua porta blue chorosa!

Tudo limpo, do banheiro ao meu âmago, repleto de vácuo e soluço.

Quatro da manhã. Quando ponho o lixo para fora, Seu Juliano, sentado na escada, três degraus depois da porta entreaberta de seu apartamento, abrindo um pote de Häagen-Dazs de morango. “Também sem sono, Dona Rebeca? Bela música tocada à exaustão escapa do seu lar, provavelmente frio como o meu.” “Faz frio esta noite, não é mesmo, Seu Juliano?” “Sim, minha filha. Mas pior mesmo é a neve interior. Sorvete aquece nessas horas. Eu tenho um outro pote dessa mesma marca aqui – dulce de leche para adoçá-la em conforto. Menina Rebeca acompanha este velho num tintim de colheres e calorias assistindo o DVD de Notting Hill? Para ser justo e evitar qualquer boba recusa, já adianto: traga os cobertores, sim. O sofá e todo resto eu garanto.” “O senhor é um anjo, sabia?” “Se William e Anna Scott nos exorcizarem o peito já está de bom tamanho, Dona Rebeca!” “Tem toda razão.”

Mais calma, tranquila, leve, “exorcizada”, como diz Seu Juliano, e 473 mililitros mais gorda, sinto agora, antes de dormir, enquanto os pássaros cantam lá fora para rasgar o dia, minha alma pintada por Chagall.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Glicemia

Eu sinto saudade. Saudade eu sinto. Sinto saudade eu. Dos caramelos. Que derretiam na boca, grudavam nos dentes e ficavam por três dias no buraco do dente alimentando o quê de paladar doce de vida que a gente precisa para fugir de chuvas de suco de limão. Eu sinto saudade. Saudade eu sinto. Sinto saudade eu. Da colher de pau vestida de resquício de tacho, de guloseima, de doçura amarronzada – prêmio por paciente ansiedade infante. Um matar com sabor de ressurreição e expectativa de nascimento. Eu sinto saudade. Saudade eu sinto. Sinto saudade eu. Do olhar adocicado de uma íris que reflete a dança redemoinha da muqueca doceira. De duas gudes jaboticabamente negras e perfeitas à beira do avental salpicado de orquídeas de baunilha a abraçar, com arrocho desamarrando em preguiça, a cozinheira gargalhando de tédio, rotina, prostração e tédio, imaginando, ou sonhando, um travesseiro de risole de camarão e palmito. Eu sinto saudade. Saudade eu sinto. Sinto saudade eu. E o exame de sangue me dirá o quanto sentirei daqui para a gente.

quarta-feira, 11 de março de 2009

farolete

Como o cervo que estaca no meio da rua, no centro geométrico, cujas juntas e ângulos solidificam no chão enquanto os faróis se aproximam. É assim. É pelo medo que a gente fica. A covardia com dedos frios enrodilhando o tornozelo. O medo é o que chamam de sensatez. São os 28 motivos que nos dão pra ficar. Pra não fazer o que seria justo e querido. E se? Melhor não. Racionalidade, a forma civilizada de fazer xixi na calça. E a coragem, bem, que seja atribuída às pessoas levianas, insensatas. Felizes. A gente fica porque tem medo. A gente vai porque quer.

domingo, 21 de dezembro de 2008

verano

É preciso aproveitar o calor destes dias, o sol que afaga sem ferir, as férias passageiras que podem morar em qualquer caminhada. É preciso admirar o reflexo conjunto da luz sobre os carros, espelhos e pára-brisas transformados em um bilhão de estrelas. É preciso cultivar e contabilizar as pintas, aumentar o patrimônio a ser controlado por um dedo demorado sobre a pele. É preciso ter paciência com a preguiça, cozinhá-la em fogo lento ou embalá-la em rede de algodão. É preciso querer as coisas boas todas, como em um álbum de figurinhas onde se permitem as repetições.É preciso olhar para o sol até que o branco aumente até tomar tudo, é preciso se cegar e desaprender as cores e perambular pelo mundo às custas das próprias mãos.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

60 segundos

Compro ouro sou garagista bombeiro-hidráulico chaveiro 24 horas porteiro plantonista de farmácia treinador de ciclista atendente de supermercado taxista feirante tradutor acompanhante de idoso resenhista entregador de água pedreiro despachante office-boy manobrista professor de surfe personal trainer lobista gráfico operador de telemarketing engraxate ajudante de cozinha repórter de revista bibliotecário gogoboy pedicure eletricista coroinha voluntário do Greenpeace motoboy lojista flanelinha professor universitário fotógrafo consultor de moda vitrinista coveiro atendente de boteco costureiro garçom legista encanador barbeiro vendedor de Bíblia locutor ambulante policial letrista jornaleiro pintor ator de teatro estilista assessor de deputado poeta
E mesmo assim, no único minuto só que
me resta, eu ainda penso em Sulamita.