Domingo, 26 de Abril de 2009

Se eu falo de amor é por pobreza de espírito, é mendicância intelectual. É falta de crivo, é pouca leitura de jornal. Se eu falo de amor é por estar indisposta, por ser absolutamente banal; é por não pensar noutra coisa, é por loucura informal. Meu coração é feijão com arroz, repetitivo que só. Bate por insistência, desconfio que seja por dó. Meu coração funciona aos trancos, deve ser perrengue no miocárdio. Se eu falo de amor é por luxo, é para exercitar o músculo e é um exercício árduo. Se eu falo de amor é que eu torço: assim quem sabe eu não ouço aquilo que eu não falo.

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Dia 13

(excertos do diário de Rebeca)

Período de entressafra.

Nem Francisco, nem Aprígio.

(Aqui, aliás, vale um adendo: onde raios eu acho homens com esses nomes?)

Enfim, voltando ao catártico desabafo e confissão: um intervalo sabático da testosterona – glória e tapa estalado.

Os solitários não sabem nada de solidão. Nada. Mesmo.

É fato.

Para gente assim, solidão é uma noite de sexta-feira “só” em casa.

Outros veem o domingo e seu habitual marasmo e comum sabor de leite por azedar como o dia para os sozinhos de todo mundo pularem de uma ponte imaginária e se deixarem afogar na fossa.

Há quem pense – acometido por uma profunda Síndrome de Garfield – a segunda-feira, sobretudo entre o jantar e o travesseiro, como um instante eterno de angústia. A todos estes solitários falta angu.

Letra D. Nenhuma das respostas anteriores estão corretas.

Não há nada mais solitário do que uma madrugada fria de sábado, limpando a casa, lavando a louça, ouvindo o silêncio gritar e zombar da sua cara. Quando faz sol no inferno, o cramunhão danado te abraça longa e gargalhadamente. Para curtir o poço com categoria, trilha sonora do filme Um lugar chamado Notting Hill no som, repeat em Marvin Gaye na faixa seis apunhalando com “How can you mend a broken heart”. Pensar a merda da sua vida com Gaye em falsete é doído qual topada de mindinho.

E eu nem tinha para quem ligar. Careta, a esta altura, desfrutava da antípoda caliente da solidão e do vazio com um dito “amigo de foda” que há muito merece ser mais que amigo.

Marvin, negro lindo, desce num rio encarvoado pelo meu rosto, desmilinguindo a maquiagem feita só pra me sentir melhor, mais bonita. Maldita seja esta canção a martirizar Rebeca Mayer e o livreiro William Thacker e sua porta blue chorosa!

Tudo limpo, do banheiro ao meu âmago, repleto de vácuo e soluço.

Quatro da manhã. Quando ponho o lixo para fora, Seu Juliano, sentado na escada, três degraus depois da porta entreaberta de seu apartamento, abrindo um pote de Häagen-Dazs de morango. “Também sem sono, Dona Rebeca? Bela música tocada à exaustão escapa do seu lar, provavelmente frio como o meu.” “Faz frio esta noite, não é mesmo, Seu Juliano?” “Sim, minha filha. Mas pior mesmo é a neve interior. Sorvete aquece nessas horas. Eu tenho um outro pote dessa mesma marca aqui – dulce de leche para adoçá-la em conforto. Menina Rebeca acompanha este velho num tintim de colheres e calorias assistindo o DVD de Notting Hill? Para ser justo e evitar qualquer boba recusa, já adianto: traga os cobertores, sim. O sofá e todo resto eu garanto.” “O senhor é um anjo, sabia?” “Se William e Anna Scott nos exorcizarem o peito já está de bom tamanho, Dona Rebeca!” “Tem toda razão.”

Mais calma, tranquila, leve, “exorcizada”, como diz Seu Juliano, e 473 mililitros mais gorda, sinto agora, antes de dormir, enquanto os pássaros cantam lá fora para rasgar o dia, minha alma pintada por Chagall.

Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Glicemia

Eu sinto saudade. Saudade eu sinto. Sinto saudade eu. Dos caramelos. Que derretiam na boca, grudavam nos dentes e ficavam por três dias no buraco do dente alimentando o quê de paladar doce de vida que a gente precisa para fugir de chuvas de suco de limão. Eu sinto saudade. Saudade eu sinto. Sinto saudade eu. Da colher de pau vestida de resquício de tacho, de guloseima, de doçura amarronzada – prêmio por paciente ansiedade infante. Um matar com sabor de ressurreição e expectativa de nascimento. Eu sinto saudade. Saudade eu sinto. Sinto saudade eu. Do olhar adocicado de uma íris que reflete a dança redemoinha da muqueca doceira. De duas gudes jaboticabamente negras e perfeitas à beira do avental salpicado de orquídeas de baunilha a abraçar, com arrocho desamarrando em preguiça, a cozinheira gargalhando de tédio, rotina, prostração e tédio, imaginando, ou sonhando, um travesseiro de risole de camarão e palmito. Eu sinto saudade. Saudade eu sinto. Sinto saudade eu. E o exame de sangue me dirá o quanto sentirei daqui para a gente.

Quarta-feira, 11 de Março de 2009

farolete

Como o cervo que estaca no meio da rua, no centro geométrico, cujas juntas e ângulos solidificam no chão enquanto os faróis se aproximam. É assim. É pelo medo que a gente fica. A covardia com dedos frios enrodilhando o tornozelo. O medo é o que chamam de sensatez. São os 28 motivos que nos dão pra ficar. Pra não fazer o que seria justo e querido. E se? Melhor não. Racionalidade, a forma civilizada de fazer xixi na calça. E a coragem, bem, que seja atribuída às pessoas levianas, insensatas. Felizes. A gente fica porque tem medo. A gente vai porque quer.

Domingo, 21 de Dezembro de 2008

verano

É preciso aproveitar o calor destes dias, o sol que afaga sem ferir, as férias passageiras que podem morar em qualquer caminhada. É preciso admirar o reflexo conjunto da luz sobre os carros, espelhos e pára-brisas transformados em um bilhão de estrelas. É preciso cultivar e contabilizar as pintas, aumentar o patrimônio a ser controlado por um dedo demorado sobre a pele. É preciso ter paciência com a preguiça, cozinhá-la em fogo lento ou embalá-la em rede de algodão. É preciso querer as coisas boas todas, como em um álbum de figurinhas onde se permitem as repetições.É preciso olhar para o sol até que o branco aumente até tomar tudo, é preciso se cegar e desaprender as cores e perambular pelo mundo às custas das próprias mãos.

Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

60 segundos

Compro ouro sou garagista bombeiro-hidráulico chaveiro 24 horas porteiro plantonista de farmácia treinador de ciclista atendente de supermercado taxista feirante tradutor acompanhante de idoso resenhista entregador de água pedreiro despachante office-boy manobrista professor de surfe personal trainer lobista gráfico operador de telemarketing engraxate ajudante de cozinha repórter de revista bibliotecário gogoboy pedicure eletricista coroinha voluntário do Greenpeace motoboy lojista flanelinha professor universitário fotógrafo consultor de moda vitrinista coveiro atendente de boteco costureiro garçom legista encanador barbeiro vendedor de Bíblia locutor ambulante policial letrista jornaleiro pintor ator de teatro estilista assessor de deputado poeta
E mesmo assim, no único minuto só que
me resta, eu ainda penso em Sulamita.

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

tsc

Eu acho feio, eu não entendo essa gente que não consegue ler um livro que não ganhou um Nobel, ouvir uma música que não toque na rádio, ver um filme que não tenha 4 estrelas, que não tenha a menor curiosidade de saber algo que não sabe, que tenha medo de descobrir por si só, que tenha vergonha de se perder nas pequenas selvas de uma biblioteca, eu tenho pena, eu acho triste, seguir à risca os guias e pedir sempre a especialidade do restaurante da moda, eu acho feio, eu acho foda, quem depois de um comentário troca de opinião sobre um artista, quem aplaude um bailarino mas não um trapezista, e não, não acho culto, por mais que alguém finja, só gostar de pintores que tem nome de tartarugas ninja.

Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

esconderijos e encontros

Um menino, uma criança bem pequena, se esconde atrás da porta de treliças de um armário, possivelmente perto dos dois anos de idade. Por ser ingênuo, ou talvez já previr o destino próximo, ou querê-lo, deixa a porta entreaberta, os pés ainda no chão a escorregar por debaixo dela, pontas à vista. Uma pista decisiva para o homem, por certo ainda jovem, que o persegue. Ao encontrá-lo, o toma debaixo de um braço. O menino esperneia, mas assim mesmo é levado para o cativeiro: o lado da cama encostado na parede. De onde o garoto tenta escapar do homem que na outra extremidade o prende. E consegue escapar! Retorna às pressas a – acredite – o mesmo esconderijo. E em segundos a cena inteira se repete. E tudo de novo umas quinze vezes, pelo menos (numa contagem evidentemente mais emocional do que precisa). Tudo isso às custas de muita gargalhada e de uma alegria envolvente de ambos. Essa é a primeira lembrança que tenho da minha vida, tal brincadeira com o meu pai, numa terra distante e fria, que não combinava com nossos corações já tão brasileiros. Depois, o tempo. Com suas felicidades outras, percalços, amores, lições e desaprendizados. Hoje o menino cresceu e, ninguém sabe bem por que, não havendo mais portas de treliças à volta, esconde-se atrás de palavras e suas entrelinhas. E o pai, que nunca foi tanto de poesias e literaturas, curiosamente o segue perseguindo. Nos novos tempos as pistas não mais são óbvias. Mas é mais maduro também o homem que observa e paciente as destrincha, como se sempre houvera sido leitor voraz. E talvez o tenha sido, mesmo, não de livros, mas do filho, este que ainda se alegra a tal carinho.

Domingo, 16 de Novembro de 2008

composição

Não é preciso ser bom na hora, não é preciso sequer que seja meio bom. Basta que crie memórias, que seja matéria prima para imaginação fazer suas obras. Que é o que me sobra. Os círculos e as volutas e o castelos de cartas incertos e vacilantes. Pode ser pouco, pero é o bastante. Energia para a espera, a longa hibernação, La petite mort. Basta umas poucas imagens, recortadas para que eu possa montar ao meu bel-prazer em infinitas colagens, trocando a ordem das mãos, embaralhando as pernas, redobrando cuidados. Oh não, na hora não é preciso que seja bom.
Basta não ser perecível.