o torpor. os efeitos se estendendo por horas depois da absorção daquela dose. os olhos fechados. o arrepio. o querer mais. a bad trip das questões que não passam pelo fino filtro frio das convenções morais.
a insônia. o girar da cama. o delírio.
o prenúncio do vício. os neurônios a mil sinapsando avais e recursos para a manutenção daquela onda eletromagnética de fechar os olhos.
no dia seguinte, a inexplicável calmaria. mas a certeza de que só dura alguns dias. até o corpo me pedir mais. me torturar com as câimbras da abstinência. se perder na leveza de ser um corpo sem o peso d'outro corpo.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
incêndio no lamaçal: há animais cuja extinção se deseja
Vê, vereador candidato, que eu de fato não quero votar em você. Antes vetar, se pudesse. O que eu quero ver é a dor de todo candidato a perder. Vereadora da placa da esquina, de onde e do que esse sorriso que te reluz a narina? Que esgoto respira? E o que nos aplaca essa sua foto de horrendas cores e palavras que te candidatam esgotando a cidade? Esse ar cândido não sabe enganar, nem tal mnemônico código numérico, não a mim. E me enoja esse praguejar contra demônios pela religião de eleitores. Quem sabe uma chama, isso sim, pudesse acender seu parlamento e o meu lamento incendiar.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
tectônica.
é preciso fechar os olhos parar que mundo aconteça. desde que o mundo é mundo, ele não gosta dessa coisa da prisão que é o olho das gentes. ele só acontece quando a gente, de olhos fechados. ele só acontece quando a gente, de costas pra ele. ele só acontece quando ele pode se mexer escondido da gente. porque algum homem de fé amarrada disse do mundo o lugar das coisas imóveis. e o mundo, todo ele, conspira pra deixar a gente conformar essa mentira.
mas é só fechar os olhos. uma a uma e pra cada pessoa que desatenta, uma pedra pula do fundo da terra e liberta sua natureza dançante.
mas é só fechar os olhos. uma a uma e pra cada pessoa que desatenta, uma pedra pula do fundo da terra e liberta sua natureza dançante.
domingo, 7 de setembro de 2008
mestre et pupila
Eu vi o menino se debruçar através dos olhos do homem, a alegria de uma bobagem, uma alegria qualquer. Eu vi as coincidências armarem suas linhas pelos meus aposentos, as coincidências que ligam as angulosas geometrias dos lugares que a gente freqüenta. As coincidências que a gente inventa. Letras coloridas e orelhas de caderno. Pequenos infernos particulares. Nossos demônios, eles também precisam de lares. Eu vi as coincidências brandas ou assombrosas, escamosas ou divertidas. Vi nossas figuras no espelho, iguais, pero invertidas. Que é como é a minha imagem que tu guarda, miniatura de ponta cabeça na tua retina.Eu, que por ventura já fui a menina
dos teus olhos.
dos teus olhos.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
gastrite, caramelinhos e caraminholas
Desde que me cortaram o café, ando chupando caramelos. Não aqueles macios, prezo muito a amplidão de minha fala. Portanto prefiro as balas mais durinhas, estilo pastilha, que não grudam os dentes. Com isso tudo, o amargo tem esvaziado-se um tanto da minha palavra agora mais doce. Doce como pode um pranto evocar renovação. E açucarado como quem continua não suportando a falta de sabor. Desde que me cortaram a acidez também, ando com essas caraminholas na língua, tentando ainda afiá-la em cada sílaba.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
miocárdio.
eu gosto quando as coisas adquirem um caráter simbólico. eu gosto quando cada passo denuncia uma história, quando cada palavra crava fundo e traz com ela um naco de carne quando a gente puxa. eu gosto quando eu sinto o coração parar e sinto a marola do sangue parado irradiando pra cada célula do meu corpo e por um instante parece que o mundo parou e que eu sou a única partícula se movendo, giro-espanando no espaço. e a inércia que dura menos que um instante é interrompida pelo pulsar de todo o meu corpo: ondas de arrebatamento saindo de alguma cavidade cardíaca, ecoando até a última célula do último fio de cabelo que brota do cocuruto. e mais uma vez. e de novo. até ser possível prever um padrão de intensidade e frequência. e é como se ele reaprendesse a se contrair e relaxar, fazendo com que o sangue flua mais espesso e me carregue pro que quer que seja a frente.
e eu me deixo ir.
e eu me deixo ir.
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