domingo, 28 de setembro de 2008

dedos

e já que falávamos de esmalte...

Esmalte não é cor, meu amigo, os vermelhos, os marrons e os pinks no fim das contas se parecem e não há por que preferir esta cor à outra. Esmalte é gênio na garrafa, é desejo escondido de se por nas pontas dos dedos, é luz de farolete pra chamar a própria sorte. Daí convém, como poções que são, que tragam o rótulo, o nome, a função, a face que vem - pérola, luxo, magia, cravo-e-canela, atração fatal, paris, condessa, cigana, gabriela, fortuna, malícia, pecado, final feliz. Esmalte, amigo, não é cor nem vaidade nem nada daquilo que você pensava. Esmalte, amigo, é mandinga da brava.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

detalhes & rubores

apenas o vermelho da unha anelar esquerda apresentava evidente desgaste do esmalte. mas não era pouco o estrago que isso fazia naquela mão tão alva e bela. ele tentava não reparar. não pensar que a unha à meia tinta comunica uma espécie de dor; denuncia o cansaço de algum trabalho manual; é uma sombra de desencanto que não consegue se esconder. ainda mais quando vermelha, como o sangue, as paixões políticas, como se diz do céu ao se por o sol (ainda que laranja). a boca! a boca, ele pensou. na boca quis fixar, então, seus esperançosos porém tímidos olhos. mas o rubro do batom estrangulava a intensionada sensualidade ao deixar escapar um borrãozinho (se é que algo pode ser aumentativo e diminutivo ao mesmo tempo) na lateral.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

de favor

Dona vizinha, por gentileza, cuide bem do meu menino, ele só bebe água de perfume, ele come semente de mamão, ele se agarra nas saias de filó. Senhora dona vizinha, isso eu te peço mais encarecidamente que aquela xícara de açúcar, olha por ele em dobro nos dias ímpares que ele tem qualquer coisa de extraordinário. Ele não se descomporta, falo sério, nunca vi. Nunca pintou parede com maquiagem e nunca passou meu rímel nas franjas do carpete. Ele sabe dar cambalhota, está aprendendo a fazer compota, às terças e quintas dê-lhe chá de bergamota. Vizinha, minha vizinha, cuida bem do meu menino. Que ele não sabe como é que eu fico sem ele. Que ele não faz a menor idéia.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

à moda de ana c.

Outro dia, quando concordei que a literatura contemporânea apresenta uma estética da delicadeza, lembrei-me da gengiva, quando sangra.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

rehab.

o torpor. os efeitos se estendendo por horas depois da absorção daquela dose. os olhos fechados. o arrepio. o querer mais. a bad trip das questões que não passam pelo fino filtro frio das convenções morais.
a insônia. o girar da cama. o delírio.
o prenúncio do vício. os neurônios a mil sinapsando avais e recursos para a manutenção daquela onda eletromagnética de fechar os olhos.
no dia seguinte, a inexplicável calmaria. mas a certeza de que só dura alguns dias. até o corpo me pedir mais. me torturar com as câimbras da abstinência. se perder na leveza de ser um corpo sem o peso d'outro corpo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

incêndio no lamaçal: há animais cuja extinção se deseja

Vê, vereador candidato, que eu de fato não quero votar em você. Antes vetar, se pudesse. O que eu quero ver é a dor de todo candidato a perder. Vereadora da placa da esquina, de onde e do que esse sorriso que te reluz a narina? Que esgoto respira? E o que nos aplaca essa sua foto de horrendas cores e palavras que te candidatam esgotando a cidade? Esse ar cândido não sabe enganar, nem tal mnemônico código numérico, não a mim. E me enoja esse praguejar contra demônios pela religião de eleitores. Quem sabe uma chama, isso sim, pudesse acender seu parlamento e o meu lamento incendiar.